''O homem morre exatamente como nasce: sem cabelos, sem dentes e sem ilusões.''





François-Marie Arouet Voltaire (1694-1778), filósofo francês


Seguro tem pressa

Por quais descaminhos anda hoje a privatização do paquidérmico Instituto Brasileiro de Resseguros (IRB)? O monopólio estatal dos resseguros internos e externos sobrevive em apenas três países: Brasil, Índia e Cuba. O restante do mundo deve estar errado, certo?

A indústria brasileira de seguros acaba de arredondar todos os seus pleitos na chamada ''Carta do Rio'', entregue em mãos, segunda-feira, ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Está escrito ali que o monopólio estatal do IRB está empurrando a modernização do setor para o acostamento.

O setor movimenta diretamente 1,9% do PIB. Com a previdência privada, a coisa aproxima-se de 3,2%. Ano passado, os contratos somaram R$ 33 bilhões (com os seguros totalizando R$ 24,5 bilhões em prêmios e R$ 13,3 em indenizações). Estão sob proteção das apólices em bloco um patrimônio coletivo de R$ 5,1 trilhões, nos cálculos da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e Capitalização (Fenaseg).

Presidente da entidade, João Elísio Ferraz de Campos diz que a sinistrose nacional de 2001 não vai reverter o ciclo de expansão continuada do setor. Ele aposta em crescimento real de até 3% no ano. Até maio o torque esteve acima de 5%. Com o adendo: ''Pelas características do negócio, o setor é o último que baixa a crista nas vacas magras e o último que solta os freios nas vacas gordas.''

O mercado segurador brasileiro carrega no ventre uma enorme demanda reprimida. Há um defeito cultural na parada: seguro ainda é contabilizado como despesa a fundo perdido e não como investimento com retorno garantido (exatamente quando se precisa dele). A subutilização mais clamorosa das coberturas disponíveis está no mercado de automóveis. Justamente no trânsito mais selvagem do mundo.

Ainda assim, as indenizações por acidentes e roubos no asfalto devem passar, este ano, de R$ 7,5 bilhões, bem à frente das indenizações na área da saúde, estimadas em R$ 4,9 bilhões (em nome de aproximadamente 29 milhões de consultas médicas, 37 milhões de exames clínicos e 1,1 milhão de internações).

Desde a ignição do Plano Real, julho de 1994, o mercado segurador acumula aqui na ponta uma expansão de 143%. O segmento da previdência privada complementar, rota de fuga da falência montante da previdência pública, registrou no mesmo período um crescimento de 1.050%. Executivos do ramo apostam que a previdência privada tende a crescer 40% ao ano. Ou seja: ensaia dobrar de tamanho a cada 21 meses.

Secos & Molhados

Grande salto
- Com a ajuda da previdência privada, o setor de seguros pretende, em dez anos, saltar de 3,2% para até 20% do PIB. As seguradoras vão redobrar esforços nas coberturas do patrimônio empresarial, dos acidentes de trabalho, de vida e saúde e de proteção ambiental.


Dos resseguros
- Sobre a privatização intermitente do IRB, o presidente Fernando Henrique Cardoso despejou o caminhão de melancias no Judiciário. ''O Executivo já abriu mão do monopólio dos resseguros, mas o Judiciário continua atrasando o processo em meio a um cipoal de pendências judiciais.''

Favor ou contra?
- Nada contra o Judiciário julgando, ressalvou o presidente, discursando na Fenaseg. Mas deplorou, textualmente: ''O problema é que nossos processos não terminam. Isso chega a dar a impressão de impunidade. Nossa Justiça é tão complexa que já virou rotina não decidir. Ora, decida-se a favor ou contra, mas decida-se.''

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