''Esta é a grande oportunidade para ressuscitar no Brasil continental a secular ideologia da integração nacional.''


Alain Touraine, sociólogo francês



Apagão, sim ou não?

Estamos ou não estamos em contagem regressiva para o apagão sem opção, vulgo corte linear do fornecimento da força e da luz? As autoridades do ramo desconversam sobre a hipótese de interrupções tópicas e táticas da oferta de energia. Interrupções já descartadas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso - movido menos pela análise e mais pela torcida.

Chuvas de agosto, com pinta de águas de março, vestiram a camisa do sistema ressequido. Mas seria preciso uma fieira de 40 dilúvios bíblicos para recolocar os reservatórios brasileiros nos níveis históricos da primavera tropical. Algo parecido, na travessia de outubro/novembro, com a média de 65% da capacidade total de armazenamento. Estamos com 23% no Sudeste e no Centro-Oeste. Ou abaixo de 17% no Nordeste, que é do ramo da poeira.

Pelo sim, pelo não, eletrocratas de prontidão sustentam que já baixou de mais de 40% para menos de 10% o risco do apagão linear.

A reversão deu-se pelo flanco construtivo da conservação de energia. Forçada ou voluntária, a poupança do precioso insumo permanece acima da meta oficial de 20% - para um déficit projetado de, no máximo, 7% (que não se perca de vista esse detalhe).

Nesta altura do calendário, estamos com folgas no sistema gerador. No leque da matriz energética, haveria hoje uma oferta possível de até 52.000 MW. O consumo aparente, em horários de pico, já estaria abaixo de 43.000 MW. Em abril, 56.200 MW.

A contenção do consumo, no fechamento deste primeiro trimestre do racionamento, ficou acima das expectativas mais otimistas germinadas lá em maio. Ela fez uso do tripé: 1) chantagem emocional do corte, da multa ou da sobretaxa; 2) redução ligeirinha da gastança ou do desperdício, cevados pela nossa secular cultura da abundância; 3) aumento ainda não concluído da eficiência energética do nosso aparelho produtivo.

No setor industrial, endereço de 43% do consumo nacional, os ganhos de eficiência energética ainda não foram calculados por setor ou por segmento de cada cadeia produtiva. Mas algumas empresas adiantam que já se obtiveram avanços de 30% ou mais. Ou seja: a mesma unidade de energia, que fazia uma unidade de produto em abril, vai realizar 1,3 unidade de produto agora em setembro. Sem quebra de produção, com racionamento e tudo.

A destacar que no setor industrial a conservação de energia não se faz da noite para o dia. Muitas fábricas ainda aguardam soluções importadas, ainda não desembarcadas. Sem contar a substituição progressiva do cabo da rua pelo gerador próprio, vulgo ''distributed power'': energia distribuída por geração localizada.

Secos & Molhados



Conservação

- A conservação de energia (pelo uso racional da própria) não deveria ser mera resposta coletiva ao repto do apagão.
Ela responde a uma lógica econômica perene: sabendo usar, não vai faltar. Percepção tardia para um Brasil que tinha na eletricidade um recurso seguro e barato... Pelas barbas de São Pedro.


Com atraso

- O certo é que entramos na conservação de energia por linhas tortas, com duas décadas de atraso. O mundo inteiro tratou de conservar energia a ferro e fogo desde o duplo ''oil shock'' da Opep nos anos 70. O Japão, o mais vulnerável, aumentou a eficiência energética da indústria em 42%, já nos anos 80.


Por que não?

- E pensar que o Brasil então importava 83% do petróleo-é-nosso... Sem racionamento. Crise de energia? Ora, partimos para Itaipu e Tucuruí na garupa da dívida externa e contratamos na Alemanha nada menos de 8 usinas atômicas até 1995. E mais 8 até 2005. Lembram-se?

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