''A doença das moedas tomou os países a fundo. É o câncer do dólar que está matando o mundo.''


Robert Mundell, in Man and Economics (1972)


Qual é o câmbio?

Certo dia, nas quebradas de 80, perguntei ao banqueiro-caipira Amador Aguiar: por que o Bradesco, maior banco privado do Brasil, continua tão tímido, um quase ausente, no mercado de câmbio? Ele me devolveu de bate-pronto: ''Porque eu não entendo de câmbio. E, como diz o dono da padaria, onde eu nada conheço, não me estabeleço.''

Até que não é difícil entender o sentido do câmbio. O que não falta é teoria monetária consolidada sobre tão fascinante matéria. O problema é entender o mercado de câmbio se mercado, por definição, flutuante ou errático. Um mercado tipo bolsa, com todos os seus caprichos, macetes e enguiços.

Do câmbio limpo (clean float) ao câmbio sujo (dirty float), passando pelo ''black'' de sempre, o câmbio negociado pelo mercado ou monitorado pelo governo deixou de funcionar como ''o preço relativo de todos os preços do universo econômico''. Função que não conseguiu exercer nem mesmo aos tempos do padrão-ouro que de padrão pouco tinha, porque um vil metal manipulado por um mercado igualmente tipo bolsa, com epicentro na City londrina.

Ocâmbio desgarrou-se do ouro para tornar-se refém do dólar. E a cotação do dólar não se obriga a guardar relação com os reais fundamentos das economias nacionais, começando pela própria economia americana. A invenção do FMI, em julho de 1944, em nada contribuiu para fazer do câmbio das nações uma ferramenta confiável para o cálculo econômico. Com crachá inicial de gestor das moedas, o FMI foi rebaixado a fiador das contas e dos planos dos países devedores nas mesas dos países (e dos bancos) credores.

Resultado: o câmbio constitui a maior ficção contábil da economia moderna pero no mucho. Governos, empresas e cidadãos começam a ligar o desconfiômetro: é preciso usinar e pactuar nova metodologia para a indispensável convergência das moedas nacionais na direção da chamada ''taxa efetiva de câmbio''. Há certa inclinação recente pelo velho conceito da ''paridade do poder de compra'' de cada moeda nacional no respectivo mercado interno.

Sim, um conceito poroso ou gasoso, mas situado bem próximo da economia real. Ou bem mais honesto que o da atual fuzarca cambial, que agora se permite o luxo chipado de dar a volta ao mundo em menos de um segundo. Entre outras coisas, tirando hoje o sono de 170 milhões de brasileiros, na zoeira de 36 milhões de argentinos.

Enquanto os argentinos vivem o sobressalto de uma iminente ruptura da paridade fixa peso/dólar, com sua conversibilidade pura, os brasileiros se perguntam nos lares e nos bares: afinal, quanto vale realmente o dólar? Acima de R$ 2,50 ou abaixo de R$ 2,30?

mockup