Joelmir Beting
''Os produtos brasileiros não são vendidos. Eles continuam simplesmente comprados.''
César Souza, consultor
Exportar ou sofrer
Treinada pelos ingleses e operada pelos chineses, a cidade de Hong Kong, menor que a do Rio de Janeiro, exporta mais que o dobro do Brasil inteiro. A afluente Coréia, duas vezes menor que o Brasil, exporta duas vezes mais - a partir da invenção de uma dezena de marcas globais.
Em plena escalada da globalização de capitais, mercados e empresas, a fatia dos países emergentes no comércio mundial expandiu-se de 21%, em 1981, para 37%, em 2000. No mesmo período, a fatia brasileira, isoladamente, regrediu de 1,7% para 0,9%.
Eis que o presidente Fernando Henrique Cardoso, na linha do ''fomos pegos de surpresa'', solta o Grito do Ipiranga: ''Exportar ou morrer!'' Exagero. A doença não é fatal. Não vamos morrer. Mas já estamos com ela a sofrer. A balança comercial não consegue fazer a baldeação do vermelho para o azul - nem mesmo com o doping cambial deste triênio 1999/2001.
A verdade é que sobra discurso e falta recurso. O consultor César Souza lembra que não temos sequer cultura exportadora. E, se o problema é também de caráter cultural, aí a solução é vagarosa no ritmo, mesmo que certeira no rumo. O esforço promocional de uma Apex, por exemplo, resfolega na inapetência de nove em cada dez empresários assistidos.
O desvio cultural tem a ver com a doutrina medieval das cidades muradas, destilada na América Latina, desde os anos 50, pelos economistas da Cepal/ONU. A cartilha cepalista fez do Brasil, em especial, um mercado protegido da competição externa e voltado para a substituição de importações a ferro e fogo. Do que resultou uma economia cartorial acomodada e de baixa eficiência, geradora de empregos ruins com salários péssimos. Incluídos fábricas e produtos das multinacionais aqui estabelecidas. O tal de ''efeito carroça''.
Não foi o que ocorreu na Sudeste Asiático. A região não se deixou levar pela Economia Política ''estruturalista'' das burocracias da ONU. Preferiu pegar carona no ''export drive'' do Japão segunda potência. Modelo hoje copiado pelo planeta China, que ainda está comunista. O ''livrinho azul'' de Deng Xiaoping, usineiro da ''chinastroika'', adota a lição anticepalista de Akio Morita, fundador da Sony: a) mercado interno e mercado externo não são excludentes ou alternativos; b) mercado interno e mercado externo são complementares ou aditivos.
E tome novo debate acadêmico sobre os desvios e os desvãos da exportação brasileira. Seminário internacional instalado, ontem, pela USP, repassa a melancólica experiência brasileira e faz o cotejo dela com os modelos vitoriosos do México, África do Sul, Índia e China. Faltou a bucaneira Coréia do Sul.
Secos & Molhados
Tapa-buraco?
- Exportar ou morrer! O governo cobra mais extroversão das empresas. A exortação oficial resvala para o ''estado de guerra'', tipo emergência nacional. Não é por aí. Triplicar exportações é palavra de ordem do desenvolvimento sustentado e duradouro e não um tapa-buraco transitório para o déficit externo em transações correntes.
Falta muito
- Os empresários devolvem a bola quadrada. Não dá para brigar e vencer lá fora só com o espadachim do câmbio volátil. O Brasil ainda teima em exportar tributos e encargos em cascata. O mundo quase todo prefere embarcar subsídios ostensivos e/ou camuflados.
Falta torque
- E o que dizer do crédito curto e caro? Os bancos financiam menos de 30% do PIB brasileiro, contra mais de 80% lá fora. Os exportadores brasileiros pagam 42% ao ano pelo capital alheio. Os competidores estrangeiros? Nada além de 12%. Dá para tomar uma AmBev antes?





