''Para o Brasil seria ótimo a Argentina livrar-se da atual encrenca. Só na Copa do Mundo cabe torcer para que ela vá para o brejo.''


Roberto Macedo, economista


Último bandônion

A mexida na paridade cambial para uso externo, em junho, não aliviou as dores da Argentina. A competitividade não saiu do atoleiro de toda uma década de peso sobrevalorizado. A alquimia do ajuste fiscal ''déficit zero'' também está longe de espancar a pasmaceira da economia nacional. Ela completa mil dias e mil noites em estado de recessão física e depressão política.

Cortar gastos, rebaixar salários, reduzir aposentadorias e aumentar impostos e encargos - eis o bumerangue do ''déficit zero''.

O arrocho reduz o consumo, a produção, o emprego, a renda, a poupança, o investimento e a arrecadação. O combate ao déficit produz mais déficit, aumentando a aflição dos aflitos.

Eis que entra em campo minado a ambulância do FMI pilotada pelo G-7. Essa injeção de óleo canforado de US$ 5 bilhões, cercada de condicionalidades, não tem massa crítica para soerguer o milongueiro estatelado. Já não mais se fala em mudança no câmbio nem em ajuste fiscal. A ordem é costurar com os credores em bloco a reestruturação da dívida em dólares. Acabou a paciência da banca internacional, com ou sem o guarda-chuva da Casa Branca por sobre o transe da Casa Rosada.

Tenta-se riscar do dicionário a palavra moratória. Washington prefere rotular a reestruturação da dívida argentina como ''default amistoso''. Para o FMI, tudo não passa de ''nova gestão de passivos''. E, para a retórica bravateira do ministro Domingo Cavallo, nada de reestruturação: ''Estamos estudando uma emissão de títulos com novas garantias para substituir parte da dívida cara por dívida barata.''

Tradução do mercado escaldado: os credores teriam de aceitar perdas de até 35%, com prazo de resgate ainda maior. Ou como diz o professor John Williamson, codificador do esotérico ''Consenso de Washington'': ''Ou você coloca mais dinheiro bom sobre dinheiro ruim ou simplesmente cai fora com deságio. O que se tenta fazer com a Argentina é um pouco de cada coisa. Ou seja: vai dar tudo em nada.''

Que não se perca a borrada ficha cadastral dos argentinos. A dívida em dólares é de US$ 132 bilhões (94% da dívida pública total). Ou 46% do PIB. As reservas estão abaixo de US$ 21 bilhões para débitos externos de US$ 88 bilhões. As dívidas privadas nos bancos argentinos estão dolarizadas em 83%. Em dez anos corridos de conversibilidade cambial e paridade fixa, a economia cresceu 42% até o sétimo ano e encolheu 7,2% nos últimos três. Os gastos públicos, no período, cresceram nada menos de 92%. E o desemprego acaba de totalizar 17% da força nacional de trabalho.

Secos & molhados

Fim de linha
- A derradeira canja do FMI e do G-7, orquestrada pelo salão oval da Casa Branca, tende a zerar as expectativas do mercado em relação a uma saída pactuada do impasse. A reestruturação da dívida teria de alcançar pelo menos dois terços do estoque dela. Tenta-se renegociar nada além de 2,5% do total.

Uma loucura
- A ruptura da paridade, da conversibilidade e do ''currency board'' equivaleria à fissão do átomo: liberaria uma energia reprimida do tamanho de uma ogiva nuclear de 10 megatons. Haveria uma quebradeira nacional do tipo reação em cadeia. Repetindo: estão dolarizados 94% da dívida pública e 83% da dívida privada.

Hiperinflação
- Em tal hipótese, haveria o abandono sumário da moeda nacional, com hiperinflação fulminante em peso. Ah! O preço de um par de sapatos seria de US$ 77. Em peso traído? Que tal 770 platas? Ou 888 patacones?

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