''Engana-se quem pensa que os bancos gostam de juros altos. Maiores os juros, maiores os riscos. É um mercado minado.''


Alfredo Setúbal, vice-presidente do Itaú


Ainda curto e caro

Que não se perca de vista o cotejo da Selic verde-amarela de estresse com a taxa básica de 3,50% nos Estados Unidos, de 7,35% no México ou de 4,90% no Chile. Nosso consolo seria a taxa-piso da Argentina em transe, de 21,75%. Nossa decepção é com a projeção do mercado, chutada em janeiro: a Selic 2001 cairia de 15,75% para 12,25%. Nesta altura do calendário, já estaria em 13,50%.

Até que a inflação não se desgarrou tanto. O IPCA gregoriano de 6%, em 2000, ainda leva jeito de se contentar com menos de 6,50%, em 2001. Com o IGPM recuando da faixa de 13% para 9%. O que estourou a cartomancia recheada de álgebra foi o câmbio. Ninguém ousou apostar, na entrada do ano, em dólar acima de R$ 2,50. Ele não passou de R$ 1,81 na média diária do último trimestre de 2000.

O que interessa é examinar menos as corcovas da Selic e mais as taxas livres do crédito bancário para o setor produtivo. Os bancos privados imaginavam continuar, em 2001, ampliando os empréstimos, espichando os prazos, estreitando os ''spreads'', rebaixando os riscos e protegendo os lucros - na base do ganhar menos sobre mais.

Que pena! No volume emprestado, de janeiro a julho, houve queda de 8,2%. Havia expectativa de expansão acima de 25%. A reversão deu-se a partir do puxa-tomada do apagão trapalhão. Capa da revista Dinheiro, edição de 31 de maio: Brasil Arrasado. No crédito ao consumo, energia da produção, o corte foi de 31%.

E os juros na ponta, encorpados por riscos e fiscos? O relatório mensal do Banco Central, divulgado anteontem, revela que a taxa média de todas as linhas de empréstimos bancários, em julho, cravou 58,3% (43% para empresas e 70% para pessoas físicas). O crédito pessoal subiu para 78,3% e o cheque especial, mui especial, para 150%. Detalhe sadomasoquista: as operações com cheque especial, o malvado, foram as únicas que cresceram em volume (13,7%).

Maior o juro, maior o risco. E tome a reversão da inadimplência. Do declive, em 2000, para o aclive, em 2001, o atraso superior a 90 dias (que exige provisão bancária de 100%) escalou de 3,4% para 3,9% nos créditos à produção e de 4,1% para 4,6% nos empréstimos ao consumo. Sufoco feito de juros maiores e prazos menores. Na média de todas as linhas de financiamento, os prazos recuaram para 95 dias na produção e para 301 dias no consumo.

E os ''spreads'' dos bancos? Na captação dos recursos, as taxas para os poupadores estacionaram na média de 18,9%. Na ponta da aplicação dos créditos, os tomadores estão pagando 58,3%. Um ''spread'' médio de 39,4 pontos porcentuais. Ou de 131,1 pontos porcentuais no cheque especial. Pode?

Secos & molhados

Até quando?
- O Banco Central bem que tenta pavimentar a redução dos juros e dos ''spreads'' de mercado. Ele divulga as taxas livres pela Internet. Já conseguiu estreitar a cunha fiscal do IOF e separar juros do principal nas pendências judiciais. E aposta no efeito catequético do futuro código de proteção do cliente bancário.

Ainda falta
- Para os bancos, a abdicação de ''spreads'' maiores não dispensa uma redução ainda maior da cunha fiscal incrustada na taxa final e de um novo rebaixamento dos recolhimentos compulsórios sobre depósitos à vista. Estes recuaram de 75% para 45% e já poderiam estar em 25%. No mundo todo, estão abaixo de 15%.

Pela lógica
- Recolhimento menor significa empréstimo maior. E, desde que foram inventados pelos lombardos, na Idade Média, os bancos gostam mesmo é de ganhar menos sobre cada vez mais...

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