''O Brasil não tem mais tempo a perder. Nosso imobilismo está zerado. Ou partimos para o Primeiro Mundo ou recuamos para o Quarto Mundo.''


Antônio Ermírio de Moraes, empresário


Façam os juros

No mercado financeiro, aqui dentro e lá fora, funciona, não é de hoje, uma ruidosa bolsa de apostas instalada no rodapé do Copom. Qual é o jogo? Adivinhar os temores e os humores que informam as mexidas, com data marcada, na taxa básica de juros, vulgo Selic. Os investidores perdem o sono e os especuladores perdem a pose.

Vamos ao novo martelo do Copom, agendado para amanhã. Para 68% dos analistas financeiros de bancos, empresas e consultorias do eixo Rio-São Paulo, o Copom vai manter a Selic de 19% ao ano. Para 17% deles, o Comitê vai rebaixar essa taxa básica para 18,50%. Para 11%, bem ao contrário, vai soerguer a dita-cuja para 19,50%. E, para 4%, a nova puxada ficaria entre 21% e 25%.

Consenso a bordo da bolsa de apostas: mexida de apenas 0,25% para baixo ou para o alto não faz sentido nesta altura do calendário da crise alheia e da neura nossa. O tal de ''mercado'' não mais levaria a sério mudanças meramente cosméticas.

Crise alheia? Para nove em cada dez analistas que apostam na alta da Selic, o que justifica uma elevação adicional da taxa básica é, mais que nunca, a arrastada agonia da Argentina. Que explica a paranóia do câmbio verde-amarelo, real perdendo 38% de tutano desde janeiro.

Para os que admitem uma redução na Selic, a exposição de motivos serve-se do tripé: 1) ela já teria subido além do necessário e não mais conseguiria refluir o dólar do aclive para o declive; 2) a escalada da Selic, este ano, equivale a um aumento anual da dívida pública em quase R$ 18 bilhões, imolando, em troca de nada, toda a receita anual da CPMF; 3) a desaceleração do PIB está passando do amarelo para o vermelho.

O problema é desatrelar a Selic (e o câmbio) da Argentina em transe. Será que o dólar na faixa de R$ 2,50 e os juros no alto já estariam embutindo um iminente choque cambial no vizinho sem alternativa? Ou só estariam amaciando esta vigília do choque?

Pelo sim, pelo não, somos todos reféns da Casa Rosada de rubor. Ou como diz o ex-chanceler Luis Felipe Lampreia: ''Se já andamos pagando tributo à crise da Malásia, da Rússia ou da Turquia, que pouca gente consegue apontar no mapa, vamos ter de pagar pelos pecados da Argentina aqui ao lado. O contágio agora é físico.''

De tal sorte, que a maioria dos empresários brasileiros, travados pelo câmbio, pelos juros e pelos cortes da força e da luz, reza por uma ruptura imediata para o cavalar impasse cambial do ministro Cavallo. Não daria para ficar nessa agonia, lá como cá, até o Natal.

Secos & molhados

Empurrão
- O abrasivo Paul O'Neill, secretário americano do Tesouro (para quem argentinos e brasileiros são todos farinha do mesmo saco de gatos), disse na televisão que os bolsos de carpinteiros, padeiros, tintureiros e enfermeiros americanos não serão convocados para socorrer os desatinos dos argentinos.

Pode zerar
- Sem a blindagem política da Casa Branca, não mais se sustenta a blindagem cambial da Casa Rosada. O mercado financeiro já decidiu: a ordem é aguardar a ruptura da paridade fixa. No mais tardar, na noite de 31 de agosto. Não por acaso, virada de mês numa sexta-feira, ideal para alquimias cambiais e bancárias.

Saindo de banda
- Saída menos dolorosa do impasse da paridade anoréxica: uma banda cambial flexível e deslizante. De 10% até dezembro e de 20% até abril. Transição, sem choque, para a livre flutuação. Nas lojas de Buenos Aires, já se cobram 10% de ágio nas compras em pesos. A banda informal já existe.

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