Joelmir Beting
''Em crises coletivas não conseguimos imaginar nossas vidas ainda mais sofridas. Mas a maioria dos analistas sempre consegue.''
Henry Louis Mencken (1880-1956), jornalista americano
Sinistrose funciona
O Brasil está perto de voltar a crescer'', suspira o presidente Fernando Henrique Cardoso. ''O Brasil está pronto para relançar o crescimento econômico sem abrir mão da estabilidade monetária e da disciplina fiscal'', endossa o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. ''Estabilidade monetária e crescimento econômico não são excludentes ou alternativos; eles são complementares ou auditivos'', arredonda o ministro da Fazenda Pedro Malan.
Só falta agora colocar esse sininho no pescoço do gato. A estabilização da economia, conquistada a partir da alquimia monetária da URV, ainda não se fez acompanhar de um ciclo de crescimento econômico sustentado ou duradouro. A retomada geral dos negócios, dos investimentos e dos empregos tem sido caprichosamente abordada na cabeceira da pista, antes da decolagem.
Foi assim em quatro crises importadas: a do México (1995), a da Ásia (1997), a da Rússia (1998) e a da Argentina (2001). Além, claro, de duas crises aqui mesmo fabricadas: a do câmbio (1999) e a do apagão (2001). Até porque se toma como crise ou como fracasso o que não tem passado de desafio ou de solução: o ajuste cambial de mercado (que permitiu afrouxar o garrote bancário da economia) e o atual desmanche do desperdício e da ineficiência nos usos da energia.
E o (re)pouso da águia americana nestes últimos 12 meses? O tranco tem sido mais forte nos vagões mais próximos da locomotiva global. O México resvalou para o crescimento zero. A União Européia interrompeu o reaquecimento esboçado em 1999. O Japão segunda potência permaneceu atolado no acostamento. E a tigrada asiática, ainda traumatizada pelo ''crash'' financeiro de 1997, prossegue de crista baixa - ela que tem no megamercado americano o endereço de 44% de seu export drive total.
Entre nós, o PIB está a meio caminho do quinto trimestre de desaceleração continuada. A média anualizada dos quatro trimestres anteriores registra o seguinte declive, segundo o IBGE: 4,58%, 4,48%, 4,28% e 2,49%. O que não tem faltado é explicação para o desaquecimento da economia brasileira. O que ainda falta é explicação para o reaquecimento dela no ano passado, com seu PIB gregoriano de 4,48%.
Seguinte: a análise econômica estabelecida emociona-se com surtos de baixa do PIB e entedia-se com ciclos de alta. A baixa é técnica. A alta é frívola. A baixa tem futuro. A alta não se sustenta. Nas curvas do IPCA inverte-se a neura: a) quando os preços sobem é inflação; 2) quando os preços baixam é promoção.
Secos & Molhados
Chantagem
- Sim, a chantagem emocional do apagão 2001 - cujo aviso prévio de 1995 foi desconsiderado pelo setor público e pelo setor privado (tal como se dá hoje com o colapso dos transportes em 2003) - tem muito a ver com a desaceleração da economia desde abril. Por uma simples e triste razão: pintaram o demônio bem mais feio do que o danado já era.
Catástrofe?
- Nove em cada dez analistas projetaram para 2001 o corte linear de 20% e não a poupança que se seguiria ao primeiro choque emocional do colapso energético que não houve. Eliminar um desperdício maior que o imaginado e aumentar a eficiência energética da economia e da sociedade não é uma tragédia. É uma solução.
Apagão mental
- Mas deu no que deu: o medo da crise mal explicada agravou o impacto da crise. A queda do PIB começou já em maio pelo lado da demanda. Sem mistério. Expectativas de crise precipitam a crise, que sanciona as expectativas.





