''Não existe capitalismo sem risco nem socialismo sem ordem.''


Joseph Schumpeter (1883-1950), in Der Modern Kapitalismus




A bolsa ou a dívida

Quem não tem sócio caça com credor. Enquanto o sócio participa do risco de ganhar ou perder, com retorno a posteriori, o credor nada perde (o calote de alguns já está coberto, com sobras, nos juros para todos). E o retorno começa antes mesmo da ignição do projeto ou da conclusão do negócio. Tenha o mutuário lucro ou prejuízo.

Resultado: as economias mais prósperas do mundo, com redistribuição social dos resultados, são exatamente aquelas que acionaram bravamente o mercado de capitais ainda na segunda metade do século 19. São países genuinamente capitalistas.

Já os países não desenvolvidos ou desigualmente desenvolvidos são todos reféns, não por acaso, do mercado bancário, credor no lugar do sócio. Em tais sociedades, míopes e físicas, o dinheiro de aluguel responde pelo financiamento reticente do projeto, da produção, do contrato, do giro, do consumo.

E o que dizer da preferência dos bancos pelo financiamento dos governos, historicamente desorganizados, perdulários e descapitalizados? Ou como ensina Peter Drucker: ''Não existem países subdesenvolvidos; existem países subadministrados.''

Pois em matéria de mercado de capitais, o da alocação da poupança nacional nos riscos e nos benefícios das empresas de capital aberto, o Brasil ainda está mais para um país capinanceiro do que para um país capitalista.

Pior: nosso mercado de capitais, ainda incipiente e reprimido, meramente residual, deu de perder posição relativa na alavancagem da economia. E com a bolsa brasileira, centro de liquidez desse mercado, agora perdendo espaço para a bolsa americana - por migração consentida e até incentivada de empresas brasileiras. No caso, incentivo por linhas tortas, o da estúpida cobrança da CPMF no giro diário e compulsivo de bolsa.

O espantoso é que a economia brasileira, não tendo a opção do sócio, não tem como escapar da gula do credor. Sem o capital de risco do acionista anônimo, minoritário, o setor produtivo submete-se à usura de um crédito bancário curto e caro, abaixo de 27% do PIB.

A águia americana, futura oponente da anta brasileira nas rinhas da Alca de 2006, corre com os dois cavalos alados no mesmo páreo: bancos fornecendo créditos de até 95% do PIB e bolsas girando ativos de capitalização de até US$ 16,4 trilhões (valor do estoque de mercado em 30 de junho). Dá pra anta anêmica encarar essa águia duplamente turbinada por capital abundante e por crédito barato? E com carga fiscal de 32% do PIB, já abaixo da nossa, de 34%?

Secos & molhados



Emergência

- Pelo sim, pelo não, o governo distraído decidiu ouvir os 15 maiores especialistas de bolsa para usinar um plano de emergência: levantar a crista do mercado de capitais, cujo esvaziamento cavernoso só tem paralelo na atual secura dos reservatórios nacionais.


O que fazer?

- A primeira reunião de trabalho ocorreu ontem, em Brasília. Presenças do ministro da Fazenda, Pedro Malan; do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel; e do presidente da Câmara, Aécio Neves. A coisa agora é séria.


Já foram

- Enquanto isso, nada menos de 76 empresas brasileiras têm papéis negociados na bolsa americana. E a maioria dessas empresas movimenta lá até dez vezes mais do que negociam na bolsa brasileira. Incluída a Petrobrás - cujas ações, na Bovespa, já renderam 77% a aplicadores do FGTS.




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