''Na vida econômica, o salve-se-quem-puder nunca salvou ninguém.''
Maílson da Nóbrega, consultorSobra energia?
Sob o título Sobra Energia, por obra e graça do racionamento implantado em junho, questionei na coluna de 8/8/2001 a sinistrose que ainda encharca os tratos do apagão no setor público e no setor privado. Com base em estimativas apuradas no setor, mostrei que haveria uma folga, agora em agosto, da ordem de 9.000 MW. Claro, sem querer dizer com isso que o racionamento, nesta altura do calendário da baixa hidraulicidade do sistema, já seria inútil sobre ser desagradável.
Do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que planeja, monitora e opera, em tempo real, o Sistema Interligado Nacional (SIN), assinado pelo seu presidente Mário Fernando de Melo Santos, recebi um vasto relatório sobre as questões levantadas pela coluna. O documento comprova realmente a ocorrência de uma folga, nesta travessia de agosto, de 9.000 MW em relação ao atendimento à demanda no horário de pico de carga.
Textualmente: ''Esclarecemos que o SIN conta com capacidade instalada nominal de 73.000 MW. O recorde de demanda mensal ocorreu em abril, com 56.196 MW. Sem o racionamento, a partir de junho, o consumo já estaria acima de 58.500 MW neste bimestre agosto/setembro. Com o racionamento, há hoje sobra de capacidade de ponta no sistema, pois o pico de demanda atual é da ordem de 43.000 MW, enquanto é possível colocar em operação, sem dificuldade, uma oferta diária de 52.000 MW. Valor que, se necessário, poderia ser aumentado.''
Sem o racionamento, o relatório do ONS sustenta que já estaríamos no apagão linear. Os reservatórios do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste anteciparam para julho o nível crítico historicamente só registrado em outubro, fundo do poço da dependência hidrológica do SIN. Com a seguinte projeção do ONS: sem os cortes de carga em vigor e sem a poupança de energia acima das metas de segurança estabelecidas, seria necessário, neste próximo quadrimestre setembro/dezembro, um racionamento de no mínimo 30% no Sudeste e Centro-Oeste e de 41% no Nordeste.
Com o comentário de Mário Fernando de Melo Santos: ''Um atraso na adoção do racionamento teria levado a restrições de consumo muito superiores às praticadas hoje, com desdobramentos socioeconômicos dramáticos e em condições operativas não mais administráveis do sistema elétrico do País. Estará afastado definitivamente o risco de um colapso se a sociedade continuar racionalizando os usos da energia. O que não dispensa um 'choque de obras' em toda a nossa matriz energética.''
Secos & Molhados
Segurança
- Recheado de gráficos sobre curvas de oferta e demanda e sobre índices de deplecionamento dos reservatórios, o documento preparado para esta coluna conclui que sobra energia, sim. Com dois adendos: a) não haveria tal sobra sem o programa de racionamento e de conservação de energia iniciado em junho; b) a folga agora existente constitui, portanto, uma reserva de segurança da qual não se deve abrir mão.
Dependência
- Por falta de verbas, obras e regras, a matriz hidrelétrica brasileira perdeu, desde os anos 80, a margem de regularização plurianual, convertida em gestão de emergência mensal. O que, segundo Melo Santos, ''aumenta sobremaneira o grau de exposição do sistema ao risco hidrológico de cada estação, nos últimos tempos com estoques sazonais decrescentes''.
Cooperação
- Conclui Melo Santos: ''A gestão da atual crise, que é transitória, tem sido possível graças à extraordinária cooperação da sociedade, que tem dado provas de cidadania e brasilidade.''
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