Joelmir Beting
Quem bate na cara do FMI quebra a mão. Quem beija a mão do FMI quebra a cara.
Joelmir Beting, in Os Juros Subversivos (Brasiliense, 1985)
Tudo sob controle
O novo guarda-chuva do FMI, dependurado no braço direito do Brasil, é de caráter preventivo, vulgo stand-by. Ou, como grifa o ministro Pedro Malan, que tem trânsito livre no Fundo desde a renegociação da dívida externa ainda aos tempos gasosos do governo Itamar Franco: O Brasil não está em crise e não entrará em crise.
Que tipo de crise? A do apagão mental nos campos chocados da energia? A do catastrofismo orquestrado no rodapé do racionamento igualmente preventivo? A do câmbio sem nexo e sem juízo, mercado tipo bolsa, neurótico por vocação e necessidade? A do contágio importado da Argentina, esta sim já no bico do urubu? A da recessão que não houve, embora alardeada por nove em cada dez cenários alarmistas, desenhados por analistas alarmados?
A crise a que se refere o ministro da Fazenda, crise que não temos, é a do balanço de pagamentos, do qual o famigerado déficit externo em conta corrente é apenas um dos componentes. De resto, um déficit contábil pervertido pela fuzarca cambial que se faz em nome dele. Seguinte: vamos ter um buraco de US$ 26 bilhões em 2001? O de 1998, antes da implosão da banda cambial, foi bem maior: US$ 34 bilhões. Digno da primeira blindagem do FMI, contratada em novembro daquele ano, da ordem de US$ 42,1 bilhões.
Pois vejam a frivolidade contábil emanada do câmbio cada vez mais desconectado dos fundamentais da economia real das nações.
Para o FMI, o déficit de 1998, de US$ 34 bilhões, não passou de 4,1% do PIB. Já o déficit projetado aqui para 2001, de US$ 26 bilhões, apruma-se para o nível tenebroso de 4,9% do PIB. Pode?
Isso me recorda o saudoso matemático e economista Mário Henrique Simonsen (1935-1997), para quem a estatística é a ficção da matemática. O problema é que essa ficção contábil do balanço de pagamentos embaça e subverte a percepção do risco Brasil nas mesas chipadas de Wall Street e do próprio FMI.
O importante é que não se teme lá fora por algum rasgo de moratória do Brasil varonil - ainda pagando juros salgados pela moratória de 1987. Aposta-se, sim, é no default argentino ainda este ano. Para não dizer ainda em agosto. Resta saber qual seria o estrago da virtual moratória do vizinho na gestão do nosso balanço de pagamentos, da nossa austeridade monetária e da nossa recauchutagem fiscal.
Pelo sim, pelo não, o novo guarda-chuva do FMI amplia o poder de fogo do BC no mercado cambial e autoriza o Brasil a levantar o teto da meta inflacionária, ainda este ano, de 6% para 7,8%. Será que vai dar? Nos primeiros sete meses do ano, o IPCA acumula 2,96%. Nos últimos 12 meses, nada além de 4,28%.
Secos & Molhados
Sem trégua
- Membros da equipe econômica adiantam que a folga na meta inflacionária não significa uma trégua na austeridade monetária. Até porque, admitem eles, a política de juros duros está menos a serviço da contenção do IPCA e mais a serviço da reversão cambial. Afinal, o efeito câmbio está pesando mais na inflação que o efeito energia.
Maior vilão
- Uma decodificação dos índices de inflação do ano revela que a maior pressão altista dentro do IPCA não vem do câmbio nem do apagão. A exemplo de 1999 e 2000, ela resulta da obesa reindexação de preços e tarifas ainda administrados pelo próprio governo - com o devido endosso da equipe econômica. E o polegar para cima dos burocratas de carreira do FMI.
Como é que é?
- No mais, se a nova blindagem cambial ajuda o Brasil a ficar de costas para o abismo, eis aí a 11a. justificativa da oposição brasileira para continuar metendo a mão na cara do FMI.





