Joelmir Beting
No universo econômico, a sabedoria tem dúvidas. A ignorância tem certezas.
John Richard Hicks (1904-1989), Prêmio Nobel de Economia
Não é tão grave
O aumento da eficiência energética das empresas brasileiras não é de caráter recessivo. O consumo menor de energia por unidade de produto pode compensar, até com sobras, os cortes de 15% a 25% da carga elétrica na produção industrial e no setor de serviços em geral.
A maior conservação de energia pelo aparelho produtivo também não é inflacionária. O consumo menor por unidade de produto tende a neutralizar a sobrecarga tarifária do precioso insumo. Sem considerar que a indústria brasileira não mais consegue repassar, com casca e tudo, custos comprovados de produção para preços finais de mercado. Que o diga a larga assimetria IPA/IPC dentro do IGP/FGV.
Resumo da ópera-bufa do apagão trapalhão: pintaram a crise de preta e não de cinza. Por uma simples e recorrente razão: previsões pessimistas são levadas sempre a sério. E o pessimismo, diria James Tobin, realmente funciona na atividade econômica: tudo piora dentro dela. Neste caso, pessimismo usinado por um equívoco de avaliação do formato e do conteúdo do fiasco energético anunciado.
Seguinte: projetaram para os últimos sete meses do ano um corte linear de 20% na oferta de energia. Não deram desconto a 27% da oferta nacional fora do alcance do corte e muito menos a uma enorme margem de conservação potencial de energia na pátria do desperdício, cevado pela nossa secular cultura da abundância.
Venho alertando, nesta coluna, sobre esse cochilo de percepção da crise, desde a entrada de maio, tempo palaciano do fomos pegos de surpresa. Eu lembrava que o Brasil da força e da luz não era uma Suíça nem um Japão - que pontificaram na conservação de energia a partir do duplo oil schock da Opep, lá nos anos 70. Havia e ainda há muito elástico frouxo, entre nós, nos usos racionais da energia.
Pois não está dando outra agora em agosto. Enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico informa que a contenção purgativa do consumo já está em 22%, a caminho de 25% a 30%, o jornal Valor abre a manchete: Economia tem queda leve e resiste ao racionamento. E a revista Conjuntura Econômica, do Ibre/FGV, edição de julho, fechada em junho, pespega em matéria de capa: A crise não é tão grave.
Mesa-redonda promovida pelo editor Roberto Fendt, com economistas da FGV, do Ipea e do BNDES, conclui: a crise é cinza e o PIB gregoriano não vai cair de 4,5% para 1,5%. Ainda dá para segurar-se aí pela brocha entre 3% e 3,5%.
Secos & Molhados
Impactos
- Para os debatedores, os impactos diretos do apagão foram alarmistas (na projeção de analistas alarmados). O efeito negativo maior derivou menos da própria crise e mais do alarmismo armado em torno dela. A descoberta de que a crise é cinza pode reverter expectativas sinistras já a partir de setembro.
Em gestação
- Com o lembrete: a capacidade de poupança de energia pelo setor produtivo ainda não está esgotada. Enquanto as famílias puxam a tomada do freezer e apelam para a lâmpada fria no mesmo dia, as empresas precisam de três ou quatro meses para a substituição de máquinas, processos, sistemas e rotinas. Não raro, com equipamentos importados ainda nem sequer desembarcados.
Choque maior
- Ainda para a mesa-redonda, os efeitos estagflacionários maiores, desde abril, resultam da fuzarca cambial, do novo arrocho monetário, do novo garrote fiscal, do (re)pouso da águia americana, do terremoto argentino e do escandalômetro planaltino. Só.





