‘‘Toda teoria, em qualquer campo, só é válida quando nos servimos dela para ultrapassá-la.’’
André Gide (1859-1961), escritor francês

McDollar
O dólar americano de 1999/2001 está sobrevalorizado no Brasil e no mundo. Mais do que o ‘‘strong dollar’’ de 1983/1985. O desvio para o alto é de 16% na Eurolândia, de 8% na Inglaterra, de 18% no Canadá, de 27% no Japão ou de 53% na China.
E aqui no Brasil? Pela taxa de R$ 2,40, o dólar acumula uma sobrevalorização, em real, aqui na ponta, de 41%. Quem diz isso? A nova métrica PPC do FMI. Que bicho é esse? A reavaliação da taxa efetiva de câmbio pela chamada Paridade do Poder de Compra de cada moeda nacional no respectivo mercado interno.
Os técnicos do FMI trabalham nessa esotérica metodologia desde a crise da Ásia, em 1997. Eles já sacaram que o câmbio de mercado é jogo de bolsa e o mercado de bolsa não é técnico. Ele se desgarra da economia real e da contabilidade das nações sem a menor cerimônia.
Pois, se há uma usina de poder enrascada nas fuzarcas intermitentes das moedas sem juízo, é justamente a do FMI. Por exemplo: como cobrar metas ou saldos externos em relação ao PIB se o PIB brasileiro, em dólar, ficou 27% menor no primeiro semestre, ainda que crescendo fisicamente acima de 3,5%?
A perícia cambial pela PPC é antiga, mas sempre desprezada por burocratas, consultores, economistas, investidores. Exceto pelos analistas da revista inglesa The Economist.
Em 1986, logo após a queda pactuada do ‘‘strong dollar’’ no miolo do G-7, The Economist partiu para a emissão trimestral de uma primeira moeda global, calibrada pela PPC, com lastro físico no primeiro produto de padrão global, o sanduíche Big Mac, da primeira cadeia global de fast-food, a McDonald’s.
Essa moeda global não é piada. Ela se chama McDollar e está mais próxima da verdade do câmbio (o valor relativo de todos os preços do universo econômico) do que todas as políticas cambiais de todos os bancos centrais. O lastro Big Mac, expurgado de tributos e encargos, é constituído por 57 ingredientes padronizados e 17 serviços igualmente padronizados em 123 países do mundo, Rússia e China no meio. O índice 100 é o preço médio do Big Mac em Nova York, Chicago e Los Angeles. Ou US$ 2,74 em 15 de julho.
Para a determinação do poder de compra do real, do rublo, do marco, do iene, da libra ou do guarani, o McDollar não é câmbio perfeito. É o menos imperfeito. Supera até mesmo a PPC do FMI. E pelo McDollar, para um Big Mac a R$ 3,60, em São Paulo, o dólar está sobrevalorizado entre nós em 46%. É muita coisa. Não se sustenta. E, para o bom investidor, meia mostarda basta.
Secos & molhados

Deve baixar
- Pois já se fala abertamente em Washington sobre uma próxima desvalorização do dólar fora dos Estados Unidos - por iniciativa do Tesouro americano, agora de corte republicano. Assunto especulado ontem por Paul Krugman.
Sem mágica
- Para resfriar o radiador do novo ‘‘strong dollar’’, a fórmula é a de sempre: rebaixar os juros made in USA e antecipar o resgate de títulos federais no exterior. Paul O’Neill já tratou da matéria com Alan Greenspan.
Hora certa
- Exposição de motivos: o PIB já perdeu dois terços do torque de 2000, a produtividade nacional volta a marcar passo, a balança comercial destila déficit de US$ 1,1 bilhão por dia e o déficit externo em conta corrente escalou de 3,9% para 4,4% do PIB.
Tonificante
- Dólar menos forte fortalece a competitividade americana pelo viés cambial - dentro e fora de casa. Ou, como lembra Krugman: ‘‘Dólar fraco redistribuiria a demanda global e daria um choque na letargia de europeus e japoneses.’’

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