‘‘O que mais distingue uma época de outra não é o que se produz. É como se produz e quanto se obtém com o que é produzido.’’
Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão
Surfando o câmbio
Reaquecidas pela desvalorização excessiva do real, em plena desova da produção, as exportações de produtos agrícolas ‘‘in natura’’ e processados, vegetais e animais, cresceram no semestre em 34,9% em volume e 17,4% em valor. O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, aposta para a balança agrícola do ano todo em superávit de US$ 15,7 bilhões.
Os dados indicam que ainda estamos enxugando gelo com toalha quente: os preços unitários continuam deprimidos no mercado internacional. Uma situação desgastante que já perdura quatro anos corridos. Tivesse o total embarcado este ano faturado o valor médio de 1997, em dólar, a receita do agronegócio de exportação estaria engordada, este ano, em US$ 5,4 bilhões. Uma pena.
Quem está nadando até aqui a favor da maré dos preços relativos ou dos termos de troca é o açúcar velho de guerra, ainda na decolagem da nova safra do Centro-Sul. No semestre, aumento de 62% em volume e de 124% em valor. Para desconsolo ainda maior do grande rival, o suco de laranja. Este, com expansão de apenas 3% em volume para uma redução de 28% em valor.
Desempenho ainda pior tem sido o do café: para um crescimento de 12,7% no peso, depressão de 29% no preço. O plano de retenção pactuada dos embarques para musculação das cotações saiu pela culatra, beneficiando parceiros menos ‘‘espertos’’. O refresco ficou com o café solúvel. A União Européia acaba de conceder cotas sem sobretaxas (que já duravam dez anos).
No complexo soja, o grão até maio foi de 44% de aumento em volume e de 31% em valor. Óleo e farelo brilharam algo mais: 21% no volume e 34% no valor. Efeito residual da ‘‘vaca louca’’ made in Europa. Onde se descobriu que o ruminante é vegetariano, dando preferência a proteínas vegetais em vez de proteínas animais (menos ainda as próprias). Animal, sim; canibal, não.
Junte-se vaca louca com febre aftosa e eis o complexo carne do Brasil crescendo lá fora, este ano, em 53% no boi e 39% no frango. Na fatura, a coisa subiu 22% no primeiro e nada menos de 61% no segundo.
Aí pela proa, o ministro Pratini de Moraes acredita em certa recuperação dos preços externos até aqui defasados nos grãos em geral. Além, claro, do atual ‘‘doping’’ cambial. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) sinaliza para uma redução nos estoques mundiais de soja, milho e trigo. Demorou!
Secos & Molhados
Vamos nessa
- Entre nós, já está havendo uma corrida para a soja, por sobre espaços do milho e do algodão. Já se fala em recorde de 38 milhões de toneladas nas colheitas de 2002. A logística de transporte das crescentes colheitas do Centro-Oeste e do Maranhão tornou a soja brasileira ainda mais competitiva.
Outra face
- O ‘‘strong dollar’’ que enriquece as exportações de produtos é o mesmo que estremece as importações de insumos. Em especial, os fertilizantes. Mas não houve até aqui um repasse maior nos defensivos nem nos tratores, máquinas e implementos - todos eles com componentes importados.
No escuro
- Ainda não dá para avaliar o impacto da crise de energia na economia rural brasileira. Nem mesmo diversas cadeias produtivas da indústria têm essa resposta. O certo é que estamos em tempo de ‘‘eletrificação’’ no campo. E, no campo, o ‘‘front’’ mais afetado é o da irrigação.

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