Joelmir Beting
Tenho sempre em minha mesa a teoria da besteira preventiva: besteira menor consciente impede besteira maior inconsciente.
Eugênio Gudin (1886-1986), economista
Todos na moita
As puxadas da Selic medrosa desaceleraram, mas não reverteram a expansão do crédito bancário no primeiro semestre.
No segmento livre do mercado, o volume de financiamentos cresceu 18,74%, contra um IPCA acumulado de 2,96% no período.
De certa forma, essa irrigação financeira botou para escanteio a sinistrose coletiva reinstalada desde março pelo câmbio e ampliada desde maio pelo apagão. Ainda sob o impulso de banguela de 4,4% no ano passado, o PIB brasileiro deve ter fechado o semestre acima de 4%. Claro, até março ele vinha com impulso de banguela para mais de 5% no ano. Ou mais de 7,5% no setor industrial.
O relatório semestral do Banco Central indica uma expansão de 7% na oferta de crédito às empresas e de 29% às pessoas físicas. Com juros anuais pela média de 37,5% nas primeiras e de 67,5% nas segundas. E mais: o prazo médio dos empréstimos foi encurtado no semestre para as médias de 94 dias na produção e de 301 dias no consumo. Com inadimplência média de 2,6% na primeira e de 4,4% no segundo.
Esses números revelam que as condições do crédito bancário na economia brasileira em 2001 - em que pese a contramão da Selic anoréxica - são as melhores (ou menos sufocantes) desde 1995: nos saldos, nos juros, nos prazos e nos riscos. O triste é que essa distensão bancária, necessariamente gradualista e cautelosa, já perdeu embalo desde abril e tende a sair para o acostamento até setembro ou outubro.
Sim, porque o câmbio se deixou ficar refém das neuras argentinas - como se já não bastassem as asneiras aqui mesmo praticadas ou inventadas. E a Argentina, de pacote em pacote, vai continuar com a corda da descrença interna e externa no orgulhoso pescoço. Pelo menos até a ruptura cambial em setembro...
A verdade que 50% da reversão das expectativas no Brasil têm a ver com os vexames da Casa Rosada. Outros 30% resultam do apagão trapalhão. Os restantes 20% exalam da fuzarca política intermitente. Mas há quem prefira menosprezar tudo isso para engrandecer a tal de quebra de confiança dos mercados nos fundamentos meramente contábeis da economia brasileira.
Pelo sim, pelo não, o governo brasileiro prefere ficar de prontidão na cabeceira da crise argentina. A tal ponto que decidiu terça-feira antecipar medidas do Plano B, o da neutralização das marolas de um eventual naufrágio do vizinho. Entre outras, a extensão das bóias do FMI e um reforço pontual da âncora fiscal.
Secos & Molhados
Sem mel
- Um choque nos gastos (para baixo) ou um choque nos juros (para cima)? O primeiro seria menos doloroso. Afetaria o setor público, que ainda está longe de fazer (e pagar) a lição de casa. O segundo penalizaria ainda mais o setor privado. Além, claro, de sobrecarregar os custos da dívida pública, reator do Risco Brasil.
Sem luz
- No mais, a percepção geral da agonia sem remédio da Argentina. A dúvida sobre o colapso não mais está em saber se haverá, mas quando haverá. A maioria dos analistas aposta no desenlace ainda antes das eleições de outubro. E até por causa das próprias eleições.
Sem paz
- Lá como cá, as carpideiras do piorômetro eleitoreiro estão operando a mil. A Argentina está com a tolerância social praticamente zerada. O desemprego na Grande Buenos Aires acaba de cravar 17,2%. Nela, os habitantes abaixo da linha da pobreza cresceram de 21%, em 1990, para 37%, em 2000. É o fim.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





