‘‘O que importa não é onde estamos, mas para onde e como vamos.’’
Aldous Huxley (1894-1963), escritor inglês
Pajelança monetária
Faior o juro da Selic, maior a dívida federal. Maior a dívida federal, maior o déficit público. Maior o déficit público, maior o risco Brasil. Maior o risco Brasil, maior o juro da Selic... Até quando o Copom vai continuar apagando incêndio com baldes de querosene?
Na reunião de hoje, a autoridade monetária deve elevar ainda mais o piso dos juros, vulgo Selic, em nome da contenção de estragos cambiais importados da crise cavalar da Argentina. O mercado financeiro, que tudo sabe, tudo quer e tudo pode, já fez posição para essa nova puxada da Selic.
A dúvida está apenas no tamanho do tranco purgativo. As apostas, aqui dentro e lá fora, vão de 1 ponto porcentual a 3 pontos porcentuais. Na segunda hipótese, a taxa subiria de 18,25% ao ano para 21,25%. Com reinstalação do viés de alta.
Nesse patamar, a nova Selic abriria picadas para as trancas do Plano B, o da blindagem verde-amarela de espanto para um iminente colapso argentino. Foi o que fizemos no colapso asiático (1997), no colapso russo (1998) e no choque cambial (1999).
O problema é que essa pajelança monetaróide, retomada em março, já aumentou a dívida (e o déficit) em R$ 6 bilhões, queimando a fundo perdido um terço da arrecadação total da CPMF no ano todo.
Acima de 21%, deletaria o segundo terço. Na altura de 25%, defendida por alguns analistas talibanescos, a Selic simplesmente zeraria a famigerada CPMF 2001. Que tal?
Ah! Para compensar esse tiro monetário no próprio pé fiscal - sem aliviar a diverticulite cambial - o governo cuidaria de refazer os respectivos orçamentos, aplicando o bisturi na coluna das despesas.
Até porque já estaria tecnicamente esgotada a panacéia tributária do aumento da carga fiscal - cada vez mais insustentável e, por decorrência, cada vez mais sonegável.
A análise de desempenho das 500 maiores empresas do Brasil no ano passado (Exame), feita pelos professores Ariovaldo dos Santos e Nelson Carvalho, revela que o setor industrial já está com carga tributária média de 44,4%.
Para a tecnocracia encharcada de álgebra, a gestão da economia brasileira nada mais é que uma engenharia contábil, sem dar a mínima aos anseios e aos receios da sociedade estressada. Seguinte: a gente eleva as metas e os meios do superávit primário (sem os juros) de 3% para 3,5% do PIB e estaremos a salvo de qualquer fuzarca nacional ou importada. Quer dizer: entre mortos e feridos, escaparemos todos.
Secos & molhados
Transitório
- A atenuante é a de sempre: um novo choque monetário duraria um trimestre, se tanto. Em novembro, a Selic já estaria no declive, por sobre o rescaldo do terremoto argentino, com epicentro na Casa Rosada de espanto.
Pero no mucho
- A Selic sobe ou desce da noite para o dia. Não é o que ocorre com a economia. Para travar projetos, contratos, negócios, mercados e empregos basta um tranco do Copom ou uma bolha do câmbio. Mas, para refazer o ritmo anterior, a lei da inércia econômica precisa de pelo menos um ano de alongamento.
Quinta parada
- Desde a estabilização do real, há sete anos, estamos a bordo da quinta reativação abortada. Que não se perca de vista: o PIB cresceu 4,4% em 2000 e mais 4% no primeiro semestre. Incluídos os solavancos de maio e junho.
Meia-volta
- Nesta decolagem do segundo semestre, estamos travados pelo câmbio, pelo tango, pelo apagão e pela Selic.

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