Joelmir Beting
Daqui a cem anos, os países pobres não terão água para beber. Em compensação, os países ricos não terão ar para respirar.
Alvin Toffler, futurólogo americano
Onde há fumaça
A equação é meridiana: se a economia global crescer pela média de 3% ao ano neste século 21, ela estará dobrando de tamanho a cada 24 anos, ficando quatro vezes maior até 2100. Nessa projeção, tida como conservadora, o nível de gás carbônico (CO2) na atmosfera, bandidão do efeito estufa, terá crescido no século em 320%.
O cálculo para as emissões de CO2 já levam em conta os ganhos de eficiência energética nas próximas três décadas - atiçados por uma energia cada vez mais custosa. Não se introduz nesse cenário a hipótese de saltos tecnológicos revolucionários no front da produção e do consumo de energia. Entre outras possibilidades ainda oníricas, a da fusão nuclear a frio e a da substituição global dos combustíveis fósseis pelos destilados da biomassa renovável.
São alguns dos indicadores pinçados do relatório preliminar que informou a instalação, ontem, em Bonn, ex-capital alemã, da VI Conferência da ONU sobre Mudança Climática. Com o alerta vermelho: expansão de 320% nas emissões de carbono provocará uma elevação de até 4,6 graus Celsius na temperatura média do planeta sem juízo. Em 2100, nossos netos e bisnetos estarão surfando mais 1,2 metro no nível médio dos oceanos.
Responsáveis por 34% das emissões globais de CO2, os Estados Unidos desembarcaram em Bonn com o crachá de vilões da civilização. E não pelas emissões atuais e futuras, mas pela recusa do presidente George Bush em ratificar o Protocolo de Kyoto: um compromisso datado de 1997 e pelo qual os países industrializados juraram rebaixar as respectivas emissões de CO2 em 5,2%, lá na frente, de 2008 a 2012.
Para entrar em vigor, o Protocolo de Kyoto precisa da ratificação, agora em Bonn, de 55 países, no mínimo. Mas sem a adesão da águia americana, animal energívoro, não haveria massa crítica do bloco para uma redução global pactuada, tida como esforço mínimo. Pior: no domingo, o Japão, segunda potência, avisou que vai deixar a decisão para outubro.
Em média, cada americano manda pelos ares 5,6 toneladas de gás carbônico por ano. Ante 560 quilos do chinês ou 280 do indiano. O governo Bush alega: a) a redução forçada do CO2 produziria recessão e desemprego; b) ainda não há comprovação científica da relação CO2 e efeito estufa.
Com a ironia política: as grandes empresas globais estão mais a fim de colaborar para a desaceleração do aquecimento de nossa querida biosfera que os respectivos governos centrais.
Secos & Molhados
Sustentável
- As empresas transnacionais têm instinto de conservação. Elas planejam cenários de até um século pela proa. Mais que nunca, estão investindo na sustentabilidade ambiental (e social) do próprio negócio. Elas desenvolvem processos cada vez mais limpos e seguros. A sujeira maior está hoje nas empresas da China e da Rússia.
Para todos
- Os estragos do efeito estufa não farão distinção de países ricos, pobres e remediados, qualquer que seja a participação de cada um deles na acumulação planetária da gororoba gasosa. Em especial, a da queima de derivados de petróleo, da ordem de 76 milhões de barris por dia, na média AIE de junho
Nevoeiro
- A frota global de veículos a gasolina e a diesel expeliu 41 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no ano passado. Poderia ter sido pior. Desde a crise do petróleo, nos anos 70, motores melhores e escapes filtrados reduziram o consumo por km rodado em 32% e as emissões em 47%.





