‘‘O torcedor brasileiro está com peninha do Felipão. Vejam a que ponto já chegamos!’’
Tutty Vasques, jornalista
Ainda sem contágio
A bolha cambial importada da Argentina em transe ainda não contaminou a domesticada inflação brasileira. E não por causa do aumento purgativo dos juros. De resto, um travão monetário mal aplicado: remédio duro para casos de inflação de demanda tem a perversa mania de virar veneno puro em surtos de inflação de custos.
O que está segurando a inflação anual na jaula de um dígito (IPCA dos últimos 12 meses na bitola de 7,35% e IPC-Fipe na marca de 6,2%) é a combinação de choques encavalados de competição nos mercados com ganhos continuados de modernização das empresas.
Não é nem mesmo a desaceleração da atividade econômica pós-desgarrada do câmbio e pós-eletrochoque de maio.
O descolamento do índice de preços na produção ou no atacado (IPA) do índice de preços no consumo ou no varejo (IPC), fenômeno observado desde o ‘‘overshooting’’ cambial de 1999, revela que não tem havido repasse de custos reais comprovados para preços finais de mercado. A ponta não aceita a pressão da base.
Palavra do IGPM/FGV. Dentro desse índice, favorito do mercado financeiro, o IPA acumula 14% nos últimos 12 meses, contra 7% do IPC. Bifurcação ainda mais ampla deu-se na travessia de 1999, tempo de choque cambial e de tarifaço trapalhão: 29% para o IPA e 8% para o IPC.
Na região metropolitana de São Paulo, o IPC da Fipe acaba de trocar o aclive pelo declive na primeira quadrissemana de julho. Para o coordenador do índice, Heron do Carmo, a taxa de julho tende a ficar abaixo de 0,60%, contra 0,85% em junho. Com o detalhe político: cerca de dois terços do IPC anual, tal como se dá com o IPCA do IBGE ou com o IGPM da FGV, resultam do reajuste dos preços ou tarifas administrados. Ou seja: o mercado livre tem a ver com apenas um terço da carestia nossa de cada dia.
Logo, para segurar o IPCA na meta de até 6%, este ano, não é preciso puxar as taxas pela base da Selic. Bastaria puxar as orelhas dos remarcadores de preços e tarifas administrados. O único produto privado que desfila repasse de custo cambial para preço final é o pãozinho francês, amassado com trigo argentino. Neste ano, alta de 9,7% na farinha e de 17,1% no pãozinho.
Será que não daria para amaciar a reindexação das tarifas em nome da emergência nacional? Não sairia mais a caráter que elevar juros de base e de ponta que só fazem por aumentar a dívida do setor público e a aflição do setor privado? Saber governar é saber escolher.
Secos & molhados
Chocante
- Nos sete anos do real, para um IPC acumulado de 92,1%, as tarifas públicas subiram 139,2% e os transportes coletivos nada menos de 214,2%. No mesmo período, a cesta básica do Procon/Dieese contentou-se, ponta a ponta, com 39%.
Purgante
- Que tal deixar a Selic em paz, a cavalo do atual viés de baixa? Na ponta do consumo, as taxas de bancos e de lojas estão, em média, quatro vezes e meia acima da Selic. Um recorde no Plano Real. Fonte: Anefac.
Estável
- Outra dica para as canetas criogênicas (ou anoréxicas) do Copom do Bacen: nos últimos 12 meses, para um IPCA de 7,35%, o núcleo dele permanece estável, em torno de 4,4%. Em novembro, o núcleo estava em 5,2%.
Apagão
- E o choque elétrico no IPCA? Está amortecido pelo aumento crescente da eficiência energética da economia e da sociedade. Simples.

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