‘‘Tomar empréstimos a esses juros significa que não temos mais crédito algum nos mercados interno e externo...’’
Domingo Cavallo, ministro argentino da Economia
Um saco de gatos?
A crise da Argentina já virou crise de toda a América Latina, suspiram os analistas de Wall Street, peritos em economias emergentes e submergentes. Ou como já dissera, em abril, o áspero secretário do Tesouro, Paul O: ‘‘Os problemas da Argentina em nada diferem dos problemas do Brasil e vice-versa.’’
Ou seja: brasileiros ou argentinos, somos todos farinha do mesmo saco furado. Somos bragentinos, epicentro do terceiro terremoto financeiro global, pós-crash da tigrada asiática e pós-calote da Rússia, o urso que virou bode.
O professor Rudiger Dornbusch, do MIT, economista alemão que se diz doutor em Argentina, escreve no britânico The Financial Times: ‘‘A verdade é que a América Latina oferece muitos riscos e nenhuma vantagem. Tanto mais agora que o ciclo de capital excedente na economia global está praticamente esgotado.’’
Ora, não é verdade que a América Latina seja uma baciada de riscos sem um pingo de vantagem. Não é verdade que a América Latina deva ser tratada como um monobloco de nações sem especificidades nacionais positivas e negativas. Não é verdade que Brasil e Argentina sejam economias integradas e sociedades siamesas. E não é verdade que o excedente de capital dos países centrais esteja zerado. Bota excedente nisso...
As vantagens exibidas por meia dúzia de países do Continente, Brasil à frente, contam com a aposta, em dinheiro vivo, das empresas globais do setor produtivo. E não com o nariz torcido dos capitais voláteis, os ‘‘chacais da moeda’’, na sentença de De Gaulle, último paladino do padrão-ouro.
O Brasil que o diga. No triênio 1998/2000, as múltis investiram nada menos de US$ 92,1 bilhões aqui no Brasil. As privatizações absorveram 31% desse total. As aquisições totais ou parciais de empresas brasileiras já estabelecidas atraíram 24%. A fatia maior, de 55%, bancou projetos das subsidiárias antigas e novas.
Para este ano, as múltis devem investir cá por estas bandas outros US$ 20 bilhões por sobre os US$ 92,1 bilhões dos três anos anteriores. Qual é a tragédia? Até 1994, antes do real, elas ficaram pela média histórica abaixo de US$ 1 bilhão por ano...
E mais: é bom não tomar como projetos cancelados ou suprimidos o que não passa de investimentos protelados ou reprimidos. Nos setores de energia, petróleo, saneamento e transportes, tal como já ocorre no ‘‘front’’ das telecomunicações, as múltis aguardam apenas a definição de certas regras para fazer do Brasil o ‘‘maior canteiro de obras do mundo’’ - se descartado o planeta China.
Secos & Molhados
Entalada
- A Argentina é caso único no mundo. Ela se deixou enredar na armadilha da paridade cambial fixa (não confundir com conversibilidade oficial garantida). O que era uma saída de incêndio para a insuportável hiperinflação não indexada se revelou uma camisa-de-força para toda uma década. Não mais sustentável.
Moratória
- Qual seria a solução honrosa (pero dolorosa) do impasse argentino? Um movimento em três tempos: 1) moratória negociada das dívidas interna e externa; 2) ajuste fiscal cavalar ou ‘‘patriótico’’ (De la Rúa); 3) substituição da paridade fixa por uma banda cambial flexível e deslizante, transição para o câmbio flutuante.
Blindagem
- As duas últimas medidas dependem unicamente dos argentinos. A primeira, fator condicionante, exige o endosso da banca internacional, escoltada pelo FMI. Com blindagem política do salão oval da Casa Branca. A mesma que Clinton garantiu ao México.

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