Joelmir Beting
Entre o Brasil e a Argentina, nunca se sabe como as crises começam, mas sempre se sabe como elas terminam: elas terminam sempre bem.
Marcos Azambuja, embaixador do Brasil na França
Estiagem cambial
Ainda não se sabe se o Banco Central do Brasil (BC) está perdendo o jogo bruto do câmbio sobressaltado. Mas já se sabe que a estratégia de jogo adotada nos últimos dez dias está dividindo a torcida nacional dos analistas financeiros: metade entende que o BC já entregou o jogo e a outra metade sustenta que ainda dá para virar o placar.
Única certeza: chutando com a perna esquerda dos juros em alta ou aplicando carrinho com as chuteiras dos dólares e títulos cambiais, o Banco Central do Brasil não vai conseguir administrar a fuzarca da Argentina. E, até prova em contrário, a tal de intervenção linear homeopática não tem massa crítica para fazer desovar o hedge cambial excessivo de pelo menos um milhar de empresas brasileiras e respectivos e gulosos provedores bancários.
O consultor Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, não endossa a estratégia de intervenções analgésicas no câmbio flutuante: é pouca liquidez para tamanha estiagem. Com o lembrete:
Mesmo em mercados maduros, a trajetória da taxa de câmbio pode descolar-se dos fundamentos por tempo prolongado.
Como não haveria justificativa política para uma queima maior das reservas cada vez mais preciosas, Gustavo Loyola diz que o BC deu de aumentar a aflição dos aflitos (atiçando a volatilidade ainda maior do câmbio) por relutar em agir no mercado de derivativos e por não atuar agressivamente no mercado de títulos cambiais.
O uso de derivativos não é permitido pelo FMI. Mas atuar com força nos títulos cambiais não é hipótese descartada pelo diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn. Com a ressalva: ainda não dá para avaliar até que ponto a bolha cambial resulta de quebra da confiança nos fundamentos ou de overdose de proteção de bancos e empresas, agravada pelo efeito manada do próprio mercado.
O ex-diretor do BC Sérgio Werlang, da FGV, pondera que foi um erro apelar para o aumento dos juros na tentativa de cercar o câmbio e de prender a inflação. Ele sustenta que o regime oficial de metas inflacionárias deveria estar vacinado contra choques de oferta tipo energia ou câmbio e contra excepcionalidades tipo crises made in Buenos Aires. Um IPCA gregoriano de 7,5%, sem expurgo, ficaria de bom tamanho para todas as turbulências de 2001.
Outro ex-diretor do BC, Carlos Thadeu de Freitas, discorda: o certo seria deletar o atual viés de baixa e mexer diariamente na Selic. O atual viés de baixa entregou o BC de mãos amarradas às sanhas e às manhas do mercado.
Secos & Molhados
Sem choque
- Ex-diretor do BC, José Julio Senna entende que a disparada do dólar para patamares nunca dantes navegados não pode ser revertida por um novo choque de juros. Esse choque furaria a bolha cambial. Ocorre que a deterioração das expectativas, aqui dentro e lá fora, é coisa grave e não uma simples bolha.
Em bloco
- A economista Eliana Cardoso admite que a deterioração das expectativas em 2001 guarda semelhança com a crise global da Ásia em 1997 e da Rússia em 1998. Argentina e Turquia, com sobras para o Brasil, refizeram o saco de gatos dos emergentes, estancando os fluxos de capital produtivo das múltis.
Retranca
- Desencorajados também pelo pouso da águia americana e pela anorexia do dragão japonês, tais fluxos devem cair de US$ 1,1 trilhão, em 2000, para US$ 810 bilhões, em 2001. Para o Brasil, essa blindagem recuará de US$ 33,2 bilhões para menos de US$ 20 bilhões. That is the problem, suspira Eliana Cardoso.





