‘‘O ministro Cavallo está coberto de razão: anta inchada transforma-se em elefante.’’
José Maria de Jesus, zoólogo
A anta e a zebra
Para os brasileiros, a zebra argentina, malhada de azul e branco, não está nas trapalhadas do Mercosul. Ela se manifesta é nas estripulias do câmbio, novo barômetro da fracassomania da anta inchada. Até quando continuaremos reféns das neuras platinas?
O mercado cambial da variedade flutuante não é técnico. Ele funciona como bolsa, que é do ramo dos solavancos reais e/ou dos sobressaltos imaginários. E, submeter o trabalho, o emprego, o negócio, o projeto e o futuro de quase 170 milhões de brasileiros, dos quais 50 milhões vegetando abaixo do nível da pobreza (FGV), aos caprichos de meia centena de bancos movidos a ‘‘hedge’’ cambial (novo disfarce da especulação tipo ‘‘black’’) , é de uma malvadeza sem tamanho.
Eis que o Banco Central do Brasil, ator principal do mercado flutuante, decide sair da retranca para o ataque, cantando todas as caçapas de um jogo bruto que não admite aviso prévio. A menos, claro, que se queira tomar como transparência o que não passa de ingenuidade.
A tal de intervenção linear homeopática, anunciada quinta-feira passada, lembra a banda transversal endógena do Chico Lopes: um miado de leão. Não é fixando o calibre do trabuco (US$ 6 bilhões), com prazo marcado (até dezembro), que se vai monitorar um mercado cambial ainda hoje semitrancado pelo lado da oferta. E com o próprio Banco Central autocastrado no mercado futuro.
Por que desistir da tática anunciada uma semana antes, a das intervenções pontuais pesadas? Para o professor Otaviano Canuto, da Unicamp, ‘‘o Banco Central aparentemente resolveu sair do jogo, embora tentando afetar seu curso’’. E mais: ‘‘De nada adiantaria ampliar o cacife de intervenção anunciado, supondo-se inclusive que fosse possível fazê-lo de modo crível.’’
O que menos importa, nesta altura da flutuação cambial, já na bitola de R$ 2,50, é investigar o grau de descolamento do dólar da taxa efetiva real de câmbio, vulgo fundamentos da economia. A maioria dos analistas (e dos doleiros de colarinho-branco) prefere sopesar as neuras de Cavallo & Cia., as pesquisas eleitorais para 2002, as penadas da Câmara de Indigestão da Crise, as bolas tortas da seleção de Leão a Felipão...
O certo é que o mercado dito flutuante, neurótico por definição, esnoba a queda-de-braço proposta pelo Banco Central, ridiculariza o viés de baixa da Selic, aposta fundo no naufrágio cambial do Titanic argentino, não arrisca um tostão no programa de governo do PT e morre de rir da piada de humor negro em que se resume a oitava versão da reforma tributária.
Secos & Molhados
Estocados
- Os 55 bancos estrangeiros em operação desinibida no Brasil deram de fazer posição em títulos cambiais vendidos pelo Banco Central. Em fevereiro, antes da escalada do dólar, tais bancos respondiam por 22,6% da massa total de títulos cambiais em poder do mercado. Em junho, já na crista da bolha, por 68,9%.
Mercadão
- Nada menos de 1.523 instituições financeiras estão credenciadas no mercado cambial brasileiro. No mercado à vista, os 55 bancos estrangeiros movimentaram, em junho, 43% dos negócios diários. Eles devem ter fechado o semestre com um ganho cambial, em bloco, da ordem de US$ 11 bilhões. A conferir.
Indomável
- Enquanto isso, o ministro Cavallo se diz ‘‘indomável e sem cabresto’’. Ele reafirma que o futuro do nosso real está traçado: adoção da mesma paridade do peso, meio-dólar, meio-euro.

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