‘‘E aí a gente liga a televisão e aparece ora o senador da corrupção, ora o ministro do apagão. Vida dura, não?’’
Marco Antonio de Rezende, jornalista
A queda do raio
Esta coluna vem acompanhando a contagem regressiva do apagão desde fevereiro de 1995. Assunto igualmente por mim tratado, desde então, no Jornal da Globo e na ‘‘Globo News’’.
Claro, sempre escoltado por consultores do ramo.
Na época, o rastilho do racionamento, projetado para a virada do milênio, independentemente do regime de chuvas, estava assim mapeado: 1) interrupção dos investimentos estatais em geração e transmissão de energia; 2) prenúncio de vácuo regulatório na desestatização anunciada, desencorajando investimentos privados; 3) demanda de energia atiçada pela eletrificação galopante da economia e da sociedade, já nas águas quentes da estabilização da moeda; 4) percepção coletiva da abundância da energia barata e segura, cevando a cultura do desperdício; 5) fiasco continuado dos programas oficiais de racionalização e conservação de energia.
Uma das últimas investidas que a coluna deu no assunto foi em 28 de agosto do ano passado. Sustentei ali que ‘‘o sistema está por um fio’’, com risco de curto-circuito ‘‘no próximo inverno’’. Eletrocratas de plantão acusaram-me de fazer terrorismo ‘‘a serviço dos poderosos lobbies dos fabricantes de equipamentos e dos empreiteiros da construção pesada’’.
O então ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho Neto, em carta-ofício da mesma data, cuidou de tranquilizar as sociais e as gerais da vida nacional: ‘‘Os riscos de um racionamento já estão afastados. Vamos instalar, já em setembro, o Comitê de Acompanhamento da Expansão Hidrelétrica e desenvolver o Programa Prioritário de Termoeletricidade. Tanto assim que decidimos acelerar o programa Luz no Campo, cuja meta é a inclusão de 1 milhão de propriedades rurais na rede elétrica, até 2004.’’
Em 21 de março deste ano, verão fechando sem as águas de março, a coluna registrou o ‘‘sinal vermelho’’’’ emitido pela Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib): ‘‘Não há mais como escapar do racionamento ainda este ano’’, resumiu o presidente da entidade, José Augusto Marques.
Para alertar a sociedade (sem ter como comover a autoridade), a Abdib realizou em 24/26 de abril, em São Paulo, o Fórum Brasileiro de Energia Elétrica. Em três dias de eletrizantes debates, brandiu-se tanto a falta de chuvas como a falta de regras. O governo anotou tudo entre dois bocejos de tédio. E a mídia deu ao assunto o mesmo espaço agora concedido ao novo Plano de Safra. Ou seja: duas colunas na página 8 do caderno B. E nenhum minuto na TV.
Então, na primeira semana de maio, deu-se a queda do raio...
Secos & Molhados
Resposta
- Desinformados, os brasileiros já fizeram do limão da indignação cívica a limonada da racionalização da força e da luz. Com poupança de 1 kWh para cada 4 ainda disponíveis, já rebaixamos o risco do apagão de 4 para 1.
Dando folga
- Vamos, em julho, de 56 mil MW na geração firme para 48 mil MW no consumo contido. O governo não cacareja essa folga para não retirar o bode russo da sala antes da hora. E a mídia não dá manchete sobre essa ‘‘reversão da crise’’ porque só notícia má é boa notícia.
Mais força
- Eis que entra em cena o programa de aumento da oferta futura. Aposta-se em ampliação de até 25% da atual capacidade instalada - nestes próximos 30 meses.
Mais neura
- Difícil é afastar o apagão mental dos cenaristas do tal de ‘‘mercado’’. Eles teimam em projetar para 2001/2003 o corte linear de 20% e não o aumento já esboçado da eficiência energética da economia e da sociedade. De resto, uma solução e não um problema.
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