Joelmir Beting
O mercado brasileiro ainda não está preparado para o câmbio livre. É uma flutuação suja: os comprados são sempre os vencedores.
Emílio Garófalo, ex-diretor do Banco Central
Banda ou bolha?
Quanto vale o dólar nessa travessia de julho? Pela taxa efetiva real de câmbio, calculada desde a paridade 1 x 1 em 30 de junho de 1994, último suspiro da URV, a moeda americana vale exatamente R$ 2,16 - se deflacionada pelo IPA, métrica da inflação na base do atacado ou da produção. Ou R$ 2,08, se sopesada pelo IPC, na ponta do varejo ou do consumo. Fonte: Global Invest.
Algo parecido poderia ser testemunhado por uma cesta ponderada de 45 moedas que, juntas, dão cobertura a mais de 90% de nossos fluxos externos de comércio e de capital.
Ocorre que a taxa de câmbio, quando usinada pelo próprio mercado, resvala para a paranóia de bolsa, desgarrando-se dos fundamentos da economia real. Ou como suspira Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia: se calibrado pelos governos, o câmbio vira ficção política; se pactuado pelo mercado, vira jogo bruto.
No caso brasileiro, até por falta de treino, a cotação diária do dólar foi promovida a veredicto irrecorrível do tal de mercado sobre o curso erradio de indicadores econômicos limitados ou pontuais, com sobras para a baciada de complicadores políticos e eleitorais. Sem contar a importação online, como nunca antes, de neuras alheias.
Em entrevista a Ângela Bittencourt, do jornal Valor, o ex-diretor do Banco Central Emílio Garófalo diz que a livre flutuação está desfalcada da livre negociação. O mercado ainda está preso na ponta vendedora, dominada por um cartório de bancos com poder de estabelecer em bloco a cotação do dia, minuto a minuto.
Claro, o cartório cambial rechaça a carapuça e jura que os bancos não especulam... Eles estão a serviço cívico das empresas brasileiras sobressaltadas, clientes famintos de proteção cambial. As empresas também não especulam... Elas estão cobrindo passivos atrelados ao câmbio ou fazendo reservas para as compras externas de insumos, componentes, tecnologias, licenças, manufaturas, geradores, consultorias.
Quer dizer: não há especulação alguma na praça. Tudo não passa de uma demanda bem maior que a oferta. Os bancos, verdadeiros doleiros do mercado livre pero no mucho, não temem sequer as intervenções corretivas do Banco Central, ator de mercado livre em meio mundo. E o próprio banco Central não se deixa testar pelo mercado em suas intenções, em suas provisões, em suas cotações, em suas emoções.
Para o Banco Central, o dólar deveria estar flutuando entre R$ 2,13 e R$ 2,19. Acima dessa banda virtual é tudo bolha cambial.
E toda bolha, por definição, é fisicamente transitória. Ou murcha ou estoura.
Secos & Molhados
Comprados
- O problema é que os comprados em câmbio, historicamente vencedores, segundo Emílio Garófalo, têm sempre um arrazoado técnico para justificar as cotações que eles colocaram nas nuvens - propagado pela mídia nossa de cada dia, chegada a cenários sinistros.
Fundamentos
- Sim, a alta é sempre técnica, juram eles. Ela traduz a quebra de confiança da sociedade, vulgo mercado, nos fundamentos da economia. Sinistrose coletiva agravada pelos escandalômetros planaltinos, pelo colapso mental da energia, pelas estripulias cambiais e políticas da Argentina, pelo (re)pouso da águia americana, pelos vacilos do próprio Bacen...
Feliz 2003
- Ah! Eis que entram em campo, precocemente, as prévias presidenciais. A massa crítica do PT continua a mesma. Ela vai de 32% aqui na largada até 44% lá na chegada. É a quarta vitória consecutiva da oposição, antes da eleição. www.joelmirbeting.com.br
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