‘‘O pessimista tem certeza de que já se alcançou o pior. O otimista acha que ainda dá para piorar um pouco mais.’’
Abel Agabenguian, economista russo
Batendo as asas
Empresas da aviação comercial brasileira acabam de anunciar investimentos que totalizam U$ 5,2 bilhões, em cinco anos. Dos quais, 78% em renovação, manutenção e ampliação das respectivas frotas.
Muito ou pouco? No mesmo período, o dobro dos investimentos públicos e privados em restauração, manutenção e ampliação da malha rodoviária nacional. Uma Buracobrás de 182 mil quilômetros de estradas pavimentadas, com pelo menos dois terços delas em estado de abandono. As rodovias já sob domínio privado não passam de 9.900 quilômetros. Ou nada além de 5,5% da malha total.
O curioso é que os bilionários projetos das operadoras privadas da aviação comercial - todas elas batendo as asas no vermelho operacional e na estolagem cambial - não provocam um único suspiro de gratidão da economia em transe. Parece que elas nada mais fazem que cumprir uma obrigação contratual de alguma agência reguladora planaltina, vidrada em metas de desempenho. Incluídas as metas de ‘‘universa-lização’’ do transporte aéreo de passageiros na horizontal do território e na vertical da sociedade.
Pois quando uma poderosa multinacional do automóvel tira da cartola uma nova fábrica de US$ 250 milhões, fertilizada por incentivos fiscais asininos, o Brasil inteiro entra em ebulição cívica, orgulhoso e gratificado.
Enquanto isso, a caravana das empresas áreas nacionais vai cruzando o deserto da indiferença verde-amarela, com seu ousado arranque de R$ 5,2 bilhões. Só faltaria ao Tesouro Nacional, distraído, deplorar essa empreitada alada, anunciando um adicional equivalente em nosso déficit externo em conta corrente.
Quem está em déficit rosca sem-fim é a própria aviação comercial brasileira. Ela ainda não se recuperou da ruptura econômica dos contratos de concessão na esteira dos congelamentos tarifários de 1986 a 1993. Anemia crônica agora agravada pela erosão cambial do negócio e pela atrofia crescente dos aeroportos nacionais. Especialmente na Grande São Paulo.
Pesquisadores do Grupo de Transporte Aéreo do ITA, de São José dos Campos (www.in fra.ita.cta.br/~gta), apontam para o risco de um iminente ‘‘apagão’’ estrutural na aviação comercial. Risco assim desenhado por Alessandro Oliveira, do Grupo : aeroportos sucatados e/ou superlotados, tecnologias obsoletas de gerenciamento do tráfego aéreo (especialmente nos controles de aproximação), escassez progressiva de profissionais altamente qualificados, planejamento estratégico inexistente, insegurança jurídica para investimentos privados e (des)regulamentação da aviação comercial ainda grotescamente porosa e gasosa. Só.
Secos & Molhados
Gargalo
- A infra-estrutura intermodal de transportes constitui o verdadeiro gargalo físico da economia brasileira. Juntando rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos - sem contar a embolia do trânsito urbano - temos um Brasil paraplégico, convocado para uma corrida com fundistas e velocistas no mercado global.
Sem regras
- Tal como se deu no setor de energia, o de transportes resvala para o colapso menos por falta de verbas e mais por falta de regras. A gestação da Agência Nacional de Transportes não consegue passar pelos abortivos políticos e corporativos.
Com aviso
- Com o aviso aos governantes de padrão ‘‘fomos pegos de surpresa’’: a derrocada terminal dos transportes ensaia virar novo escândalo político na travessia de 2002. Com ênfase no modal rodoviário, com sobras para o transporte coletivo.
Explosivo
- A gota de pólvora já está nas argutas pranchetas do crime organizado: a violência incentivada do roubo de cargas e, logo mais, do roubo ensaiado de ônibus e de carros particulares por toda a malha rodoviária nacional. Algo sem similar no mundo.

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