Joelmir Beting
A probabilidade de a inflação ser banida para sempre é a mesma de a composição de um dicionário resultar de uma explosão na tipografia.
Bernard Baruch (1870-1975), financista americano
Real perdeu 206%
Partejada por uma gestação de quatro meses no ventre da URV, clonagem do dólar, a nova moeda brasileira completa, neste sábado, sete anos de vida, paixão e sorte. Muita sorte. O real veio à luz no vácuo sideral cavado pelo gasoso cruzeiro - que acumulou, em três décadas corridas de indexação desvairada, um IGP-DI de 1,142 quatrilhão por cento! Sim, uma inflação de 16 dígitos.
Usinado por uma alquimia monetária sem paralelo na literatura econômica dos povos, o Plano Real ousou e conseguiu quebrar um impasse único no mundo - o da correia de transmissão da inflação dita inercial, realimentada pelo uso e pelo abuso da correção monetária (até diária) de preços e contratos formais e informais.
No balanço de sete anos de atribulada carreira, por sobre o terreno minado de asneiras internas e de crises alheias, a descoberta um tanto quanto melancólica de que o estágio da estabilização ainda não conseguiu entregar o bastão de ouro ao estado da estabilidade.
Essa se manifesta com índice anual sustentadamente abaixo de 3% - por um triênio, no mínimo.
Segurem-se nas poltronas: o real acumula, de julho de 1994 a junho de 2001, um IGPM de quase 206% (ou 204,67% até maio). Na ponta do varejo ou do consumo, o poder de compra da moeda, que se quer cada vez mais robusta, nesse mesmo curso de sete anos, sofreu uma erosão de ponta a ponta de 211% no IPC (dentro do IGPM). Ou de 198% no IPCA do IBGE, alugado como medida oficial das metas inflacionárias do Banco Central.
Quer dizer: ainda não dá para baixar a guarda. Não se pode cacarejar estabilidade monetária para um real que se deixou desvalorizar 206% em apenas sete anos. Exceção, dentro dele, da estimada cesta básica, a dos 68 bens e serviços patrulhados, diariamente, pelo Procon/Diese nos supermercados metropolitanos. Limite econômico da população de baixa renda, cerca de 64% do eleitorado de 2002, a cesta básica acumula, nestes sete anos, uma carestia de apenas 49%.
O curioso é que a série histórica do IGPM, indexador favorito do mercado financeiro, nunca é computada pelo debate rosca sem-fim em torno dos soluços e dos enguiços cambiais do real. Pois bem. Pela paridade do poder de compra no mercado interno, o real perdeu pelo caminho dois terços do cacife original. E um cruzamento com o IPC americano, com alta acumulada de quase 19%, no mesmo período, indicaria que o dólar deveria estar valendo, hoje, cerca de R$ 2,60. Para o bom especulador, meio entendedor basta...
Secos & molhados
Como é que é?
- O diploma cambial do real não é assim tão simplório. A verdadeira cotação da moeda nacional (num mercado cambial tipo bolsa) não pode desprezar uma cesta balanceada de moedas - na qual o dólar teria o peso maior. Fora dela, o câmbio constitui mera ficção monetária, a dano da economia real.
Cesta básica
- Em meio mundo, a cesta cambial abriga, em média, 45 moedas. Elas cobrem mais de 90% dos fluxos globais de comércio e de capital. Cesta ponderada pelo peso de cada uma dessas moedas em tais fluxos globais e também pelas taxas de inflação em cada moeda. Fácil, não?
Quanto vale?
- Pela cesta balanceada de 45 moedas, o dólar desfila uma sobrevalorização real de 31% (posição de 30 de abril) fora dos Estados Unidos. Um strong-dollar agora questionado pelos industriais americanos do Conference Board, em manifesto remetido, em maio, ao presidente Bush e ao secretário ONeill, ex-Alcoa.
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