Joelmir Beting
Nada de novo na frente ocidental. Governo astuto também chuta com as duas no jogo bruto da livre flutuação cambial.
José Maria de Jesus, importador entalado
Forca na aldeia
Era uma aldeia medieval sem juízo e sem dono. Até que um dia o bispo teve um estalo. Mandou erguer na calada da noite uma grande forca no meio da praça da matriz. Pela manhã, ressabiados, todos se perguntaram: quem vai ser enforcado? Ninguém, esclareceu o bispo.
Com o adendo: se algum dia for preciso... E, desde então, reinou a disciplina na cidadela murada.
Quinta-feira, logo pela manhã, o xerife da moeda, Armínio Fraga, anunciou ao mercado cambial sem juízo e sem bala que vai construir no centro da praça da especulação uma forca do tamanho de US$ 10,8 bilhões. E sem fazer uso de um único lenho das reservas internacionais do País. Que sempre foram, por definição, reservas de blindagem ou de intervenção.
Resultado: não vai ser preciso enforcar um primeiro condenado.
O mercado cuidou imediatamente de baixar a crista na direção da taxa efetiva real de câmbio. A coisa foi tão acintosa que os titulares dos estoques especulativos não vacilaram em acionar o reverso do efeito manada ainda durante a própria fala do presidente do Banco Central - justamente respeitado (e temido) como um vitorioso profissional do próprio mercado. Tal como um Rivaldo ou um Riquelme da bola. Sim, com sobras para o lado argentino do campo.
Bancos centrais ativos atuam olimpicamente no mercado cambial sem banda. Não há nem mesmo necessidade de sinalizar pisos ou tetos virtuais para a oscilação tipo bolsa do câmbio sem cabresto. Os que fazem posição em dólar, no caso brasileiro, acabam de sentir o bafo desse mico com pinta de gorila. A forca acaba de ser erguida no meio da praça. Ela simplesmente aguarda a próxima bolha cambial.
Alguém mais se habilita a entrar na alta progressiva para sair numa baixa intempestiva?
Para o professor Luciano Coutinho, da Unicamp, a forca na aldeia do Bacen tem dois graves reparos: 1) deveria ter sido instalada logo após o eletrochoque do apagão, na largada de maio; 2) se já na boca do forno, desde a semana passada, por que não anunciá-la na segunda-feira, antes da reunião com aviso prévio do Copom?
Isso teria dispensado o desgaste emocional e econômico da puxada de 1,5 ponto porcentual da Selic, na quarta-feira. De resto, um tranco inócuo no rodapé da bolha cambial - que só murchou a partir da ameaça de intervenção (de mercado) do próprio Banco Central. Tanto assim que o Copom, humildemente, já sabendo da forca na aldeia, catapultou a Selic com viés de baixa pela proa.
Secos & molhados
Equilíbrio
- Que não se perca o fio da meada: é a promessa de intervenção no mercado e não a recarga da Selic que passa a usinar a nova taxa de equilíbrio do câmbio. Alguma coisa parecida, em junho/julho, com a bitola R$ 2,10/2,15 por dólar.
Sem grilo
- Dólar a US$ 2,15, deflacionado pelo IGPM de janeiro a junho, equivaleria a uma correção real, no semestre, de 16%. No último trimestre de 2000, a taxa média foi de R$ 1,81. Ora, correção real de 16%, em apenas seis meses, ficaria de bom tamanho para a competitividade verde-amarela.
Blindagem
- Ao apelar para a forca na aldeia, o Banco Central busca algo mais que furar a bolha cambial do semestre. O negócio é fazer a blindagem do real contra os disparos à queima-roupa do peso argentino. Que ainda não se resolveu em relação ao dólar matrimonial de 1991. Mesmo porque sabemos inventar e produzir nossas próprias crises. Chega de importar as neuras alheias.





