Joelmir Beting
Sempre que a realidade econômica muda,
minha convicção acadêmica também muda.
John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês
Inútil e desagradável
O aumento de 1,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, vulgo Selic, é tiro de canhão para matar a codorna da economia real e é tiro de espingarda mata-gato para afugentar o dragão da especulação cambial. O primeiro funciona: a economia, já chocada pelo curto-circuito da energia, sai do aclive para o declive. O segundo, objetivo maior, é inócuo, sobre ser iníquo.
A ponderação é do consultor Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. Que diz, textualmente: A autoridade monetária corre o risco de pagar um custo bem maior que o benefício. O custo de não conseguir o efeito desejado no câmbio em troca do aumento da dívida pública e da redução ainda maior da atividade econômica.
Faltou acrescentar: além de deteriorar ainda mais as expectativas internas e externas dos agentes econômicos. Começando pela nova retranca dos consumidores desenganados e cidadãos idem.
A austeridade monetária perdeu eficácia teórica num Brasil já de há muito escorchado pelo crédito bancário mais curto e mais caro do planeta sem juízo. Até por overdose do arrocho, que já dura duas décadas, o que seria um remédio duro acaba atuando como veneno puro. Entre nós, o monetarismo talibanesco tem sido surdo e cego.
Primeiro: o câmbio acima de R$ 2,40 nada tem a ver com Selic mansa. Espirros e suspiros argentinos, fora do alcance do Copom verde-amarelo de susto, pesam mais na volatilidade do mercado flutuante tipo bolsa do que o anoréxico crédito bancário para produção, giro e consumo. Ainda abaixo de 30% do PIB, caso único no mundo.
Segundo: tentar furar a bolha do câmbio para desinflar a barriga do IPCA é não ter a humildade acadêmica de reconhecer que a economia real mudou aqui dentro e lá fora. O que tem segurado a inflação pelos chifres, malgrado choques de oferta e tensões cambiais intermitentes, não é a austeridade monetária (com direito a uma tremenda desintermediação bancária). Também não é a neutralidade fiscal dos superávits primários (sem os juros).
E muito menos a recessão que não houve. Em 2000, o PIB subiu de 1% para 4,5% e o IPCA baixou de 8,9% para 6%. Não menos supimpa: com redução de 4,25 pontos na Selic e expansão real de 42% na oferta de crédito para produção e de 57% para consumo. E com câmbio médio bem comportado de R$ 1,81 no último trimestre do ano da virada que se desenhava definitiva...
Desde a crise do México, em 1995, esta é a quinta decolagem abortada da produção e do emprego - em sete anos de atribulada estabilização da moeda nacional.
Secos & Molhados
Sem repasse
- Se o objetivo último é segurar o IPCA na bitola gregoriana de 4% a 6%, cabe lembrar que a nova economia, que não está nos livros, deixou de praticar o repasse, com casca e tudo, de custos gerais (e cambiais) para preços finais.
Teste do IGP
- Resultado: no IGP dos últimos 30 meses, cada 1 ponto porcentual do IPC (varejo ou consumo) correspondeu a 2,7 pontos porcentuais do IPA (atacado ou produção). Nos últimos 12 meses, convergência de 1 x 2: IPC de 6,9% versus IPA de 13,7%.
Trava geral
- A trava geral do repasse não é a Selic aqui nem o Fed lá. É a sinergia, como nunca antes, de choques encavalados de competição com lances continuados de modernização.
Equívoco
- Em resumo: aumentar juros para espancar o câmbio e garantir a blindagem do IPCA constitui uma privação inútil no câmbio, sobre ser desagradável na economia e inócua na inflação. Um novo erro de terapêutica destilado por um velho equívoco de diagnóstico.





