‘‘O novo câmbio argentino é um pesadelo de regulação e fiscalização. Ele equivale a uma licença para fraudar ou um convite à corrupção.’’
Steve Hanke, economista americano
Chico Cavallo
Nas exportações, o ‘‘empal-me’’ de 8% ou mais aguça o apetite do superfaturamento. Nas importações, bem ao contrário, a nova alquimia cambial atiça o escape do subfaturamento. Até porque, alugado como ‘‘flexibili-zador’’ da paridade peso/dólar (nas transações de comércio exterior), o euro tende a perder valor em relação ao dólar, alargando o ‘‘empalme’’ argentino.
A advertência online é do consultor americano Steve Hanke, da Universidade John Hopkins. Ele foi conselheiro do governo Menem para assuntos cambiais, pós-retirada de Domingo Cavallo. Para o professor Hanke, não há como ‘‘fiscalizar os fiscais’’ de alfândegas, bancos, fundos, contas internas, contas externas e sistemas ilegais de arbitragem de juros e de câmbio.
Entre nós, o professor Antonio Delfim Netto observa que o ministro Domingo Cavallo nada mais fez que dar vida a um velho esqueleto latino-americano: o do sistema de taxas múltiplas de câmbio, a partir da desvalorização da taxa comercial (nas exportações). Uma panacéia para a qual o mercado cada vez mais ouriçado não concede um centavo de credibilidade.
Delfim Netto diz ainda que o ‘‘ativismo frenético’’ do ministro argentino, ao largo das patrulhas do FMI e das carrancas de FHC, tem explicação na bomba-relógio das contas externas que não fecham e dos negócios internos que não andam. E, como já ensinavam os generais romanos em Cartago, em situação de emergência suprema, a saída mais ousada acaba sendo, com certeza, a mais segura.
A dívida externa, da ordem de US$ 151 bilhões, cinco vezes o valor das exportações, precisa de um refinanciamento, este ano, de US$ 49 bilhões. O espichômetro já negociado de US$ 29 bilhões deixa um buraco ainda sem cobertura de US$ 20 bilhões. Os investimentos diretos das multinacionais saíram para o acostamento da própria crise cambial do país. E a balança comercial (e de serviços) continua patinando no vermelho.
Refrescado pelo primeiro ‘‘swap’’ e exibindo o jogo de cintura da paridade não mais congelada, Domingo Cavallo vai partir para a Eurolândia em busca de um ‘‘swap’’ complementar de US$ 13,7 bilhões, em euros. Claro, se o mercado europeu, mais reticente que o mercado americano, não apostar na própria lógica obtusa do câmbio fixo: flexibilizar e coçar é só começar.
Filme em preto-e-branco já rodado aqui mesmo no Brasil, em janeiro de 1999. O Efeito Chico Lopes. Com sua banda endógena, ele deixou passar um boi, passando toda a boiada...
Secos & Molhados
Paliativo
- Não é com uma aspirina cambial de 8% que a Argentina vai voltar a crescer no segundo semestre a um ritmo estrepitoso de 6% ao ano - na promessa de Domingo Cavallo, domingo à noite, pela televisão. Nem mesmo com a ajuda de uma ligeira descarga tributária, de efeito a médio prazo.
Dois gumes
- O câmbio fixo, adotado em abril de 1991, transformou o dragão da carestia anual de cinco dígitos na minhoca de uma deflação de 1,2% ao ano, na média do último triênio. Como não existe almoço de graça, o preço da façanha está na recessão acumulada de 4,2% no mesmo período. Com desemprego de 15%.
Sem opção
- Ou a Argentina dolariza tudo de vez ou deixa o peso perder o excesso de peso, da ordem de 30%. Nesta segunda hipótese, haveria uma hiperinflação em peso, para uma sociedade blindada em dolar. Na primeira, a Casa Branca empalmaria a caneta da Casa Rosada.
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