‘‘Estabilizar a economia é como jogar xadrez. Exige inteligência, perseverança e paciência.’’
Keneth Arrow, Prêmio Nobel de Economia
Feliz 2003
Monetaristas brasileiros sustentam que se o Copom não tivesse empinado a Selic, este ano, de 15,25% para 16,75%, a inflação já estaria aprumada para mais de 6% até dezembro. E com o dólar, nesta altura do calendário, trafegando acima de R$ 2,60.
Essa cartomancia recheada de álgebra inclui o ‘‘choque de oferta’’ da crise de energia, com a conseqüente corrosão adicional do governo FHC para as urnas de outubro do ano que vem. Ah! A sucessão presidencial, mais cedo do que o esperado, começa a deteriorar, por sua própria conta e risco, as expectativas já amarfanhadas dos agentes econômicos situacionistas.
E tome nova reunião do Copom para a quarta revisão da Selic no ano. Se depender do câmbio ainda no aclive, a taxa básica tende a permanecer no viés de alta. Ela pode subir, nesta quarta-feira, de 0,25% a 0,75%. De olho rútilo no ‘‘overshooting’’ cambial. Em janeiro, o dólar valia R$ 1,94. Mesmo com as três esticadas da Selic, escoltadas por leilões de títulos cambiais do Bacen, o dólar escalou para R$ 2,10 em março, R$ 2,24 em abril, R$ 2,37 em maio e até R$ 2,47 agora em junho.
Para o professor Affonso Celso Pastore, a desgarrada da moeda americana estaria configurando menos uma bolha cambial e mais uma onda cambial. Questão de física aplicada: a bolha murcha ou explode. A onda persiste e produz outra onda. Ou, se preferem: a bolha é frívola, a onda é técnica...
Nesta metade de 2001, a onda cambial tem a ver com a convergência de tropeços dos outros com trombadas nossas. De fora para dentro, o (re)pouso da águia americana, a fadiga do câmbio argentino, a recarga do contágio dos emergentes e a contenção 3 x 2 do fluxo de capitais produtivos das múltis.
Com um efeito estatisticamente perverso: essa onda cambial já reduziu o PIB 2001 em 25% (em dólar), elevando o déficit externo de transações correntes em relação ao PIB assim atrofiado. Um risco Brasil a maior de caráter meramente contábil. O problema é que o tal de ‘‘mercado’’ tem medo de qualquer fantasma por ele mesmo criado.
De dentro para fora, a neura cambial alimenta-se da alta do IGP, da queda do PIB, do desgaste de FHC, da fuzarca de ACM, da rebrota da CPI, do sumiço do MWh, do vexame da CBF... Em resumo: para baixo, todos os demônios ajudam. A sinistrose nacional, cada vez mais robusta, dá total credibilidade a projeções pessimistas de toda natureza. Ou de qualquer intenção.
A bordo do piorômetro verde-amarelo, a especulação cambial e a manipulação eleitoral têm um futuro promissor. Feliz 2003!
Secos & Molhados
Hidráulica
- Voltemos à terra firme. Para resfriar o dólar, o Banco Central injeta na praça dólares do estoque e/ou títulos cambiais do Tesouro. Esse movimento retira reais de circulação. A liquidez assim depenada eleva os juros para todos os mortais da economia real.
Lado bom
- Mexendo com juros e com câmbio, a política monetária desarma pressões inflacionárias suplementares. Ela está a serviço de um IPCA gregoriano abaixo de 6%. Teto ainda não abandonado pelo regime das metas inflacionárias para este ano-calendário.
Lado ruim
- O problema é que juros de queixo erguido baixam a crista da economia faminta de crédito decente. Isso deteriora cenários e justifica nova escalada supostamente purgativa dos juros - a cobra engolindo a própria cauda.
Risco maior
- Juros e câmbio para o alto encarecem a rolagem da dívida pública que financia o déficit público, reator do risco Brasil.
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