Joelmir Beting
A taxa de câmbio é uma conveniência política dos governos.
Nada tem a ver com a contingência técnica dos mercados.
Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia
Um peso volátil
Com o dólar no Brasil transitando abaixo de R$ 2,00, a Argentina ainda dava alguma sobrevida à paridade fixa peso/dólar, instalada em abril de 1991. Todavia, com o dólar cá por estas bandas em transe batendo no travessão de R$ 2,40, o ministro Domingo Cavallo, o criador, acabou por jogar a toalha, rompendo a paridade, a criatura.
Em regime de câmbio fixo, flexibilizar e coçar é só começar. A adoção do câmbio duplo, com desvalorização do peso nas operações de comércio exterior, sinaliza para os peritos do ramo que a flutuação cambial nas operações financeiras já estaria na boca do forno. Com os desmentidos oficiais de praxe. Ou como lembraria Simonsen: em política cambial, deve-se conceder ao governo o direito de mentir.
A válvula de escape do câmbio fixo, usinada por Domingo Cavallo, desfila o rótulo de empalme. Para cada dólar/peso nas compras externas, o importador pagará um fator empalme calculado pela diferença do dia entre o dólar/peso e o euro. Valor repassado automaticamente ao exportador na outra mão. Na abertura do regime híbrido, nesta terça-feira, esse fator equivale a uma desvalorização de 8% na importação e a uma valorização de 8% na exportação.
Nada de novo na frente platina. O Plano Cavallo, depositado em abril no Congresso, já apontava para a incorporação do euro à paridade do peso. Como o euro flutua em relação ao dólar, a ruptura da paridade fixa já estava publicamente contratada. A novidade do regime anunciado sexta-feira está na desvalorização do peso para uso externo sem promover sua desvalorização para uso interno.
Com essa nova alquimia cambial, o ministro Domingo Cavallo busca rechaçar a pressão dos empresários argentinos por uma solução brasileira - a do câmbio flutuante. Ao mesmo tempo, procura pavimentar a longa estrada para a adoção da futura paridade dólar/euro (a partir do dia em que o euro passar a valer um dólar).
Quer dizer: se e quando o euro igualar o dólar, para que o euro? E se o euro passar a valer mais que o dólar? Truísmo cambial de lado, os exportadores torcem para que o euro jamais iguale o dólar. Bem ao contrário, eles gostariam que a moeda única européia ficasse ainda mais fraca - o que lhes daria um empalme mais forte.
E o Brasil varonil? Para uma economia que acusa o golpe de uma desvalorização nominal do real, aqui na ponta, de 140% em sete anos, a desvalorização externa do peso, em 8%, em dez anos, pouco pesa. O problema está na desvalorização interna do real em 23%, nestes últimos cinco meses.
Secos & molhados
Quanto vale?
- Economistas argentinos sustentam que o peso estaria valendo 30% mais do que realmente pesa. A competitividade da economia Argentina, reator da reaceleração do PIB, exigiria essa máxi de 30%, por baixo.
Perdas reais
- E mais: produtos agropecuários respondem por 71% do valor total das exportações. E, para essa pauta, as oscilações de bolsa pesam mais que as variações do câmbio. A cotação mundial média dos 20 principais produtos registrava, em abril de 2001, uma desvalorização comercial de 34% sobre a média de 1995.
Neura maior
- Ainda para o Brasil, o efeito negativo da mexida cambial do parceiro está na volatilidade ainda maior do nosso próprio câmbio. O tal de mercado, já encharcado de hedge, entra na vigília de uma ruptura terminal da paridade Argentina. Tal como se deu entre nós, em janeiro de 1999, com a banda endógena do Chico Lopes.





