‘‘O risco argentino deixou de ser o cambial ou o econômico. O perigo maior está no campo político: o da ruptura social.’’
Eduardo Gassman, economista argentino
Cavallo tem pressa
A contagem regressiva para a implosão social da Argentina, hoje sentada na bomba-relógio do desemprego estrutural de 1 adulto em cada 6, pode zerar em 2002. Reconvocado para uma urgente empreitada de salvação nacional, o ministro Domingo Cavallo tenta produzir fatos e artefatos para a reversão das expectativas dos cidadãos desenganados e dos mercados ressabiados.
Entre outras iniciativas estrepitosas, Domingo Cavallo articula com o Congresso mudança cambial na paridade fixa, mas sem abandonar a livre conversibilidade da moeda argentina (atrelada ao dólar americano). Na gestação legislativa dessa abrasiva matéria, o superministro acaba de sacar da banca internacional o alongamento do serviço da dívida externa ainda refinanciável.
O desafio, doravante, é reativar a economia e o emprego sob o tacão do câmbio engessado. Para tanto, o ministro aposta todas as fichas, que são poucas, no estreante programa de competitividade nacional. Que não dispensa cirurgias a frio nos corpos tributário, financeiro, orçamentário, trabalhista e regulatório.
Pedreira ainda maior: o ministro ousa servir-se da negação de cláusulas pactuadas do Mercosul para traçar os atalhos da redenção nacional. Assunto espinhoso que veio discutir pessoalmente, ontem, com o presidente FHC, assistido por todo o primeiro escalão.
Domingo Cavallo, tão logo reempossado, desembarcou em São Paulo e não deixou por menos: rotulou a Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul de ‘‘palhaçada’’. No lugar dela, pau da barraca da união aduaneira, o ministro propõe o casuísmo tarifário dos apertos e desapertos de cada parceiro do bloco, segundo o figurino do mercado comum pero no mucho.
Exemplo: para vitaminar a competitividade regional, Domingo Cavallo voltou a defender, em Brasília, a tarifa zero para a importação de bens de capital (de países não integrantes do bloco) e a tarifa modal de 35% para a importação de bens de consumo. Só faltou sugerir a adoção, pelo Brasil, do modelito cambial argentino, por ele mesmo recortado em abril de 1991.
A retórica de Cavallo é meridiana: 1) o Mercosul não está com a corda toda para empolgar todos os países ao sul do Panamá; 2) o bloco regional acabará esvaziado pelo advento da Alca ‘‘made in Washington’’; 3) na decolagem da área de livre comércio das três Américas, janeiro de 2006, brasileiros e argentinos terão de encarar na mesma rinha a águia do Tio Sam, já dono de 77% do PIB pan-americano.
Ontem, em Brasília, o indócil ministro Cavallo só faltou suspirar fundo: ‘‘Dá para tomar uma Quilmes antes?’’
Secos & molhados
Sem tempo
- Conselheiro de Domingo Cavallo, o consultor Rosendo Fraga disse ontem ao jornal Valor que o dilema político da vez está em arrancar do Congresso as reformas de base antes das eleições legislativas de outubro. Eleições que já apontam para a derrota dos aliados do governo Fernando de la Rúa.
Plebiscito
- Pesquisa de opinião, citada por Rosendo Fraga, revela que a imagem positiva do Mercosul, entre os argentinos, caiu de 45%, em 1993, para 29%, em abril último. E a da Alca? Apenas 12% acham que ela vai somar.
Desmanche
- A mesma pesquisa, do Centro de Estudos Nova Maioria, indica que a imagem positiva não passa de 14% para o governo, de 7% para o Congresso, de 6% para o Judiciário e de 4% para os partidos. Na economia, nada além de 8% para as empresas e de acachapantes 4% para os sindicatos.

mockup