Joelmir Beting
Com a globalização, haverá no futuro apenas três traços da identidade nacional: a bandeira, o hino e a cultura.
José Maria de Jesus, analfabeto em inglês
A cultura é nossa?
A bandeira e o hino ainda dá para proteger. A moeda nacional tende a desaparecer. E a cultura genuinamente brasileira? Será que temos vontade e interesse em realmente preservá-la da pasteurização global que já começou? E como zelar pela qualidade dos bens culturais produzidos e consumidos aqui no Brasil?
Eis o tema do painel sobre sistema global versus cultura nacional, no 22.º Congresso Brasileiro de Radiodifusão. O assunto foi tratado, segunda-feira, pela mesa dirigida por Nelson Sirotsky, presidente da RBS. Participação do ministro da Educação, Paulo Renato Souza; da secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind; do deputado federal (PT-SP) Aloizio Mercadante; do apresentador Carlos Massa (Ratinho); e do jornalista que vos escreve, Joelmir Beting.
Organizado pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), o evento de três dias discute os impactos da revolução tecnológica (e da globalização a galope dela) na produção e no consumo de bens culturais. Verdadeira corrida contra o relógio digital da globalização terminal da economia e da sociedade.
Corrida que vai pegar, cá por estas bandas, o atalho da futura Alca. A formação do megabloco pan-americano acabará forçando a convergência supranacional das regras econômicas e dos estatutos jurídicos. Também dos padrões culturais? Well, os americanos são chegados à produção e exportação de cultura made in Usa e abusa, desde a invenção do gramofone e do cinema mudo de espanto.
O reparo é do deputado Aloizio Mercadante: o advento da Alca, com aviso prévio, dramatiza a urgência de medidas de salvaguarda da produção brasileira de bens culturais. Não no sentido da reserva de mercado dos produtores brasileiros, mas da garantia de mercado dos conteúdos aqui produzidos (ainda que por empresas de fora).
Novo aríete da globalização invasiva (e evasiva), a futura Alca, disse Mercadante, virá escolada pelo jogo bruto admitido pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Abriu-se o mercado global para a indústria competitiva dos países desenvolvidos, mas ainda não para a agricultura competitiva dos países remediados.
Com o adendo do ministro Paulo Renato Souza: Não queremos um Brasil autárquico para os meios de difusão cultural. O problema é que não estamos preparados para a negociação das reciprocidades inerentes a tratados bilaterais ou multilaterais. Essa falta de jeito e de treino é o maior risco que corremos, seja nos acordos comerciais, seja nos contágios culturais.
Secos & Molhados
Indústria
- A produção e difusão de bens culturais tende a ser uma das maiores indústrias do século 21. Cultura finalmente encaixada na cesta básica da qualidade de vida da civilização do conhecimento (Drucker), do ócio criativo (Masi) e do entretenimento (Toffler).
Liderança
- Pois o que não falta é conteúdo nacional na grade da radiodifusão brasileira. Na televisão aberta, a programação nacional do horário nobre cresceu de 63% nos anos 70 para até 85% nos anos 90. Só perde hoje para os Estados Unidos, que são do ramo. E, em nada menos de 42 países, telenovelas brasileiras já somam 127 milhões de espectadores por dia.
Blindagem
- Nas águas turvas da pasteurização sem bandeira e sem hino, cada país sério vai ter de fazer a blindagem política de seu patrimônio cultural. Como nunca antes, a cultura brasileira está na linha de tiro da cultura estrangeira. Esta deu de navegar em bits e não mais em átomos. Incluída, num simples clique, a pirataria chipada dos produtos culturais digitalizáveis: filmes, vídeos, discos, livros...





