Joelmir Beting
Não tenhamos pressa: o futuro sempre nos chega a 60 minutos por hora.
Albert Einstein (1879-1955), físico alemão
Sem apagão
Boa notícia: o Ministério do Apagão acaba de abandonar a idéia de tributar o sol e o vento, insumos básicos das futuras centrais de energia solar e de energia eólica. Decidiu, igualmente, rejeitar a proposta de tarifar os faróis de milha e os faróis de neblina de automóveis e caminhões. Bingo!
Falando sério: chocada pela chantagem emocional do apagão que não houve a população brasileira já está cortando o consumo de eletricidade em mais de 20%. Em São Paulo, a coisa já cravou 22% nos horários de pico. Provavelmente, a poupança coletiva ainda baterá nas traves de 30% - tamanha a margem de desperdício herdada de nossa secular cultura da abundância.
O interessante é que essa resposta espetaculosa da sociedade ao programa de racionamento de caráter punitivo não tem gerado manchetes. Por uma simples e velha razão: a boa notícia não é mais notícia. Que graça haveria em trombetear que o processo de racionalização ensaia dispensar o programa de racionamento?
Ao governo não interessa cacarejar essa omelete. Primeiro, porque o desgaste político já está feito e não tem reparo. Segundo, porque o mérito dessa poupança maior que a encomenda não é do governo. É da própria sociedade, tão fraudada por ele. Terceiro, porque espalhar uma contenção precoce dessa magnitude seria retirar de cena o bode russo da ameaça do apagão.
A uma boa tranche da imprensa igualmente não agrada fazer o jogo do contente. Ainda arrostamos o complexo de mídia chapa-branca. O que tem nos levado a cultivar a síndrome da mídia coisa-preta. Dar boa notícia supostamente favorável ao governo é como desmunhecar, escreve Gustavo Franco.
O certo é que o gol de placa já assinalado pelo processo de racionalização voluntária dos usos da energia (especialmente no setor residencial) tende a dar a carona a uma resposta de igual calibre no setor comercial e, sobretudo, no setor industrial. Nesse último, por obra e graça de um tarifaço oblíquo já esboçado pelo esquema ainda trapalhão de cotas, metas, cortes, multas, sobretaxas e cargas adicionais a preços abusivos no mercado spot, vulgo MAE.
Assim sendo, dá para acreditar em poupança voluntária e/ou compulsória de até 30% do consumo médio do ano passado nas regiões mapeadas pelo programa (endereço de 70% do consumo nacional). Economia de 11.560 MW. Ou seja: nas regiões afetadas, atravessaríamos o segundo semestre com demanda de 29.000 MW para uma oferta de 40.000 MW. Sem apagão.Secos & Molhados
Tarifando
- Eis a questão ofuscada pelo apagão: o tarifaço aí pela proa do setor industrial. O comando da Aneel já trabalha na revisão da política tarifária garantida em contratos antigos de 46 operadoras. Claro, em nome do escuro. Essa revisão, anteriormente prevista para 2003/2004, deve ser antecipada para 2001/2002.
Convergindo
- Até aqui, as fábricas pagam 2,4 vezes menos que as famílias. As primeiras respondem por 41% do consumo total. As segundas, que subsidiam as primeiras, entram com 20% (a caminho de 15% ou menos). Logo, o negócio é duplicar as tarifas industriais sem remarcar as tarifas residenciais.
Repensando
- O racionamento reduz o consumo presente, mas não estimula a oferta futura. O tarifaço chuta com as duas: rebaixa os desperdícios na demanda e reativa os projetos na geração.





