Joelmir Beting
Qual é o preço?
Na coluna de sábado (2/6/2001), sob o título Questão de fundo, tratamos da controvérsia irremovível sobre a avaliação de ativos estatais em processos de privatização. No caso, os futuros leilões das grandes geradoras ainda não privatizadas. Sobre o assunto, o presidente do BNDES, Francisco Gros, escreve à coluna:
Fico pasmo com a discussão sobre o que seria a fórmula correta de se avaliar ativos energéticos para efeito de privatização.
Ora, o vendedor pode avaliar seus ativos do jeito que quiser. Mas o comprador só vai investir nisso se o capital tiver retorno adequado. Caso contrário, aplicará seu rico dinheiro em outra freguesia. Logo, o preço correto acaba sendo aquele apurado num leilão competitivo, com a participação do maior número possível de interessados.
Acho extraordinário alguém querer sustentar que a Cesp-Paraná valeria pelo menos R$ 7,2 bilhões, quando ela foi oferecida duas vezes por R$ 1,7 bilhão e não apareceu nenhum comprador. Será que são todos malucos em recusar tamanha galinha-morta? Isso me lembra minhas tias-avós: elas sempre achavam que seus bens valiam muito mais do que o mercado poderia lhes oferecer. Nunca venderam nada. Até porque nunca precisaram vender coisa alguma.
Eis a questão: será que realmente não precisamos vender as geradoras de energia? Será que temos para investir nelas recursos públicos da ordem de R$ 40 bilhões em três anos? De onde serão desviados tais recursos num orçamento cobertor-de-pobre? A verdade é que não se privatiza por convicção. Privatiza-se por precisão.
Vide o caso do setor de telefonia, já privatizado. Ele investe, este ano, R$ 28 bilhões. Será que estaríamos aplicando tudo isso no setor se ele ainda estivesse pendurado no orçamento público? Ora, existem questões fundamentais para serem discutidas na energia. Mas a futura privatização das geradoras, certamente, não é uma delas.
Quanto à questão do preço da energia velha, também focada em sua coluna, o negócio é o seguinte: se os consumidores quiserem continuar queimando energia a preços calculados com base em ativos depreciados, tudo bem. Mas quem iria investir bilhões em energia nova muito mais cara? E tanto mais cara quanto mais rapidamente pudesse chegar ao mercado?
Essa não é nem mesmo uma questão de se privatizar ou não. Se a estatal investir pelo custo da nova para gerar pelo preço da velha (nivelado pelos ativos depreciados dela), quem acabaria pagando essa conta? Aí, Joelmir, só teríamos dois candidatos: os consumidores e/ou os contribuintes. Mas seria justo remeter essa conta para os contribuintes?
Secos & molhados
Aço puro
- Gigante da siderurgia, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), privatizada, faz algo mais que aço. Ela gera energia por sua própria conta e risco num Brasil que ainda hoje vacila em privatizar a geração. Ela era dona da maior conta de luz do País. O consumo da usina de Volta Redonda equivale à metade do consumo da cidade do Rio de Janeiro.
Onde faz
- Desembolsando US$ 620 milhões, a CSN instalou uma central termoelétrica dentro da Usina de Volta Redonda. Em parceria, construiu as hidrelétricas de Igarapava (São Paulo/Minas Gerais) e Itá (Santa Catarina/Rio Grande do Sul). Já inauguradas, elas somam 1.890 MW, o equivalente a todo o consumo da cidade de São Paulo.
Força total
- Gigante da mineração, a Vale do Rio Doce, privatizada, acaba de anunciar uma carteira de US$ 2 bilhões para a geração de autoconsumo e de terceiros. Investir em energia tornou-se um negócio rentável - na expectativa de regras claras e tarifas justas.
O susto do apagão começa a dar luz ao sistema.





