Joelmir Beting
No apagão, não é que o governo não veja a solução.O que ele de há muito não enxerga é o problema.
Juliano Bastide, sociólogo
A bolha da crise
A crise de energia é um gargalo estrutural transitório. Estrutural ou institucional? Falta de chuvas ou falta de regras? Falta de enchimento das represas ou falta de investimento nas usinas? Atrofia da oferta ou fuzarca no consumo?
Pelo sim, pelo não, o sucesso já garantido do programa de racionalização (o da redução do desperdício nacional) tende a engavetar o esquema de racionamento punitivo. As empresas, ainda com tarifas subsidiadas no setor industrial, cuidam de melhorar a relação consumo de energia por unidade de produto. Tal como se deu, em todo o Primeiro Mundo, nos choques do petróleo.
O aumento esboçado da eficiência energética das fábricas brasileiras, maior que o imaginado por nove analistas em cada dez, acabará por neutralizar, rapidinho, os cortes do insumo e os coices da tarifa. O que significa dizer: sem recessão e sem inflação, como escreve Gesner Oliveira, da FGV-SP e ex-presidente do Cade.
A menos que se entenda por recessão e por inflação as bolhas do ajuste imediato das empresas ao choque de oferta da força e da luz. Bolhas com duração de um trimestre, se tanto. A bolha inflacionária do choque cambial de 1999 durou de fevereiro a abril - com deflação em maio. Para espanto do sadomasoquismo que predomina na avaliação dos desafios brasileiros pós-real.
A definição mais que tardia das regras cambiais do gás natural e, logo mais, das regras contratuais do Mercado Atacadista de Energia Elétrica deve esvaziar a sinistrose gerada pelo apagão institucional do sistema. O que vem rolando aí pela proa é um gigantesco canteiro de obras, finalmente turbinado por investimentos incentivados. Com pelo menos uma década de atraso.
Que não se perca de vista, mesmo com redução forçada ou voluntária do consumo (a ser contrabalançada pela maior eficiência energética do aparelho produtivo), o descolamento progressivo da demanda de energia das bitolas do PIB brasileiro. Somos uma economia e uma sociedade ainda em fase de eletrificação progressiva. Não é o caso dos países já desenvolvidos.
O lembrete é de Carlos Alberto Canesin e Fábio Wakabayashi, professores da Universidade Estadual Paulista (Unesp): situado no top ten do PIB global (pelo conceito do poder de compra da moeda nacional), o Brasil figura em 82.º lugar em matéria de consumo de eletricidade por habitante. Dá para escalar entre os 50 mais.
Secos & Molhados
Briga boa
- O setor elétrico vai ter de encarar a eletrificação do País na horizontal da sociedade e na vertical da economia. Que o diga a explosão do mercado de eletrodomésticos pós-real. Mercado ainda hoje sabotado por um crediário de Drácula, com juros de até 135% ao ano. E se esse crediário recobrar o juízo?
Uma corrida
- E mais: temos para universalizar nos usos da energia cerca de 38 milhões de patrícios ainda nos tempos da lamparina a querosene. A universalização da energia corre o risco de ser ultrapassada pela universalização da telefonia do Serjão. Tal como já se deu, faz tempo, com a universalização do gás no fogão.
Energívoros
- O desafio da eletrificação de moradias e de empresas acabará amaciado pela modernização forçada (com nova normatização) dos aparelhos e equipamentos até aqui energívoros.
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