‘‘Devido à desobediência, fomos expulsos do paraíso.
Devido à imprudência, nunca mais voltaremos a ele.’’
Franz Kafka (1883-1924), escritor checo
Dia mundial do juízo
Nesta passagem do Dia Mundial do Meio Ambiente, somos 6 bilhões de terráqueos a bordo da espaçonave Terra. Em sua viagem sem-fim pelo Universo, nossa azulada espaçonave transporta três desafios dramáticos.
Primeiro: os passageiros continuam reproduzindo-se a bordo ao ritmo da aritmética demográfica dos coelhos. Mesmo com os descartes milenares da fome, da doença e da guerra, teremos de dar carona a um acréscimo de 1,2 bilhão de novos assentos nesta primeira década do século 21. Exatamente toda uma China.
Segundo: a espaçonave Terra não tem como fazer parada técnica para o reabastecimento das provisões de bordo. Teremos de sobreviver unicamente com os recursos já disponíveis. De preferência, os recursos renováveis, sem perdas por desleixo, ignorância ou incompetência - caso hoje da energia hidrelétrica brasileira.
Terceiro: os tripulantes e os tripulados só acordaram para o dilema do crescimento infinito dentro da biosfera finita há menos de três décadas, ao fim e ao cabo de sinais de perigo emitidos pela natureza há mais de cinco milênios. Ou desde a devastação da Mesopotâmia.
O problema é que 70% dos estragos ambientais já cometidos, em especial os do século passado, são de caráter irreparável - na estimativa do Worldwatch Institute. O tal de efeito estufa, por exemplo, ainda pode ser travado, mas não mais revertido.
E se depender dos Estados Unidos, emissores de um terço da calota planetária de carbono, nem a trava será instalada: o governo Bush acaba de rasgar o Protocolo de Kyoto.
A nova poluição da riqueza não tem sido maior que a velha poluição da pobreza. Um bilhão de terráqueos vegeta no limite da sobrevivência biológica do cachorro vira-lata. Um quinto da Humanidade está a um passo do colapso da água potável. E, já em tempo de violação científica dos códigos da Vida, produzimos o vexame europeu de enlouquecer vacas e ovelhas com rações dignas de orcas e tubarões.
E o que dizer da sucata plutônica da guerra fria? Milhares de ogivas nucleares, estocadas por americanos opulentos e por russos deserdados, acumulam um ‘‘overkill’’ equivalente a 4,2 toneladas de dinamite para cada habitante do planeta desavisado. Sentados nesse arsenal ocioso, mas não desativado, estamos todos nós, pela primeira vez na História, ameaçados não apenas como indivíduos, mas como espécie. A espécie do bicho-homem sem juízo.
Secos & Molhados
Instinto
- Felizmente, ainda temos o instinto animal da conservação da espécie. Desde a primeira Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, em 1972, alastra-se por meio mundo a cruzada da proteção ambiental, agora servida por estatutos nacionais cada vez mais severos.
Vingança
- Antes tarde que nunca. Já se discute nos lares e nos bares o tal de desenvolvimento econômico sustentável. Com a antiga exposição de motivos: quando violada ou agredida, a natureza não se defende. Ela apenas se vinga. E como se vinga, torcida brasileira...
Cadê?
- A verdade é que, em plena aurora do Terceiro Milênio, a espaçonave Terra transporta a civilização do Conhecimento, mas não, ainda, a civilização da Sabedoria. A sabedoria nada mais é que o conhecimento temperado pelo juízo. E cadê o juízo?

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