Joelmir Beting
O Brasil sempre foi feito por nós.Chegou a hora de desatar os nós.
Aparício Torelly (1895-1971), Barão de Itararé
Fábricas ao mar
O programa alternativo do PT para o equacionamento da crise de energia começa pela instalação de uma câmara setorial tripartite no lugar da Câmara de Gestão da Crise. Nos moldes das desativadas câmaras setoriais dos governos Collor e Itamar, a câmara setorial estaria integrada por representantes dos governos, das empresas e dos sindicatos - com sobras para outros segmentos da sociedade civil. Afinal, todos os que fazem parte do problema devem fazer parte da solução. Ou da decisão.
Evidentemente, o PT condena a privatização do setor elétrico (ou de qualquer outro setor da economia). Imposição ideológica das bases do partido. Não questiona as limitações de capital do setor público nem a escala de prioridades na aplicação desse escasso capital disponível.
O partido prefere desfilar uma baciada de medidas para respostas energéticas de curto, médio e longo prazos. Entre outras, a limitação da produção e da expansão dos fabricantes de alumínio. Com a seguinte exposição de motivos: 1) o setor é energívoro como nenhum outro; 2) entre nós, consome 9% da energia total; 3) tem pouco peso no mercado de trabalho; 4) não está focado no mercado interno; 5) exporta 85% da produção.
Já vimos esse filme lá fora ou, mais precisamente, no Japão dos anos 70. Literalmente chocado pelo primeiro oil-shock da Opep (até o Pentágono se disse pego de surpresa), o Japão segunda potência, importador líquido de 78% da energia que então consumia,simplesmente exportou suas fábricas de alumínio para os arredores asiáticos. Além de cancelar incentivos diversos para outros ramos industriais do gênero eletrointensivo.
Ao botar o dedo em riste na cara do alumínio verde-amarelo, servido por abundância de bauxita e até recentemente por grande fartura de energia subsidiada, o PT não está sozinho cá por estas bandas. Um ex-consultor da Eletrobrás, o físico americano Howard Geller, não deixou por menos no Estadão de 28/5/2001, pág. 2: em nome da emergência nacional, o negócio é puxar a tomada dos produtores de alumínio.
Membro do American Council for an Energy Efficient Economy, de Washington, o professor Howard Geller propõe: que tal dar férias coletivas de um ano aos fabricantes de alumínio? O governo pagaria os salários e os encargos e bancaria os lucros cessantes das empresas temporariamente apagadas. Na prática, estaria recompran-do a esse custo a energia por elas não queimada. Custo que poderia ser infiltrado em algum tarifaço aí pela proa...
Secos & Molhados
Califórnia
- Howard Geller ajudou a costurar um plano semelhante na Califórnia igualmente chocada. As fábricas de alumínio foram desativadas até abril de 2003. Quem paga essa conta é a Bonneville Power, empresa federal. Que repassou, com lucro, para outros ramos industriais, uma energia assim devoluta de 2.100 MW.
Botocúndia
- Ainda o professor Geller: ele participou da costura do nosso Programa de Conservação de Energia (Procel), lançado em 1986. Reconhece que o Procel obteve alguns avanços na guerra santa contra o desperdício e a ineficiência. Mas nasceu e viveu até aqui desfalcado de prestígio político.
Bem Brasil
- Eis que entra em campo a neura coletiva do apagão (que ainda não houve). Howard Geller ainda não acredita: em apenas 5 semanas de chantagem emocional da crise, já poupamos 20 vezes mais energia que nos 15 anos de obscura carreira do Procel.





