‘‘Num Brasil onde o futuro a Deus pertence, quem se responsabiliza pelo passado?’’
Ivan Lessa, jornalista
Acabou o baile
O programa de racionalização e/ou racionamento de energia, que tende a ser adotado por tempo indeterminado, ainda nem decolou oficialmente, mas já desfila uma poupança voluntária da força e da luz da ordem de 18,8% neste maio que termina. Palavra do Operador Nacional do Sistema (ONS).
Muito ou pouco? Na raça e no susto, já reduzimos o consumo pelo equivalente a dois terços de uma Itaipu. Não deu manchete. Pois a redução do consumo nas regiões mapeadas pela chantagem emocional do apagão trapalhão ensaia emplacar 25% ou mais - dispensando os cortes punitivos, ainda que não as sobretaxas oportunistas.
Esse primeiro balanço das respostas da economia e da sociedade ao primeiro choque elétrico do berço esplêndido carrega uma notícia boa e uma notícia ruim. A boa notícia: queremos, podemos e sabemos poupar. A má notícia: o desperdício por desleixo coletivo nas famílias e nas empresas, agravado pela baixa eficiência energética de aparelhos e sistemas, era bem maior do que se poderia imaginar até abril, antes do curto-circuito planaltino.
Algo parecido deve estar ocorrendo com a preciosa água encanada. Na região metropolitana de São Paulo, servida pela competente Sabesp, estatal modelar, a gente deixa escapar pelo ralo da ‘‘cultura da abundância cabralina’’ perto de 40% da água tratada - recurso que já está sendo captado a mais de 130 quilômetros do marco zero da Praça da Sé. A Sabesp nada pode fazer contra isso - enquanto a conta da água continuar uma intocável ninharia.
No desperdício de energia deu-se algo parecido. Tarifas baratas e até mesmo subsidiadas para consumidores industriais, comerciais e de serviços têm muito a ver com a atual contagem regressiva para o blecaute envergonhado do sistema. Com a ressalva: as tarifas para os consumidores residenciais já estão, não é de hoje, de bom tamanho. Ainda que não suficiente para espancar nossa intemperança nos usos e nos abusos da energia.
O comparativo é da Organização Latino-Americana de Energia (Olade). Em junho de 2000, dólar a R$ 1,81, enquanto a família brasileira pagava, em média, US$ 113 pelo megawatt/hora, a empresa brasileira refestelava-se com US$ 37. Esta, um terço daquela. Há exatamente um ano, a geradora de ‘‘usina velha’’ produzia por US$ 32 e só recebia US$ 18. Ela quebrava o galho com os US$ 113 das nossas casas, onde queimamos menos de um quarto da energia gerada em todo o País.
Secos & Molhados
E lá fora?
- Mas não seria assim no mundo todo? Nada disso. Lá fora, as tarifas das empresas equivalem a quase dois terços das tarifas das famílias. Na Argentina, US$ 141 para as segundas versus US$ 83 para as primeiras. Na Califórnia, baixaram os picos das residenciais para os pisos das industriais (e não o contrário). Aí, faltou luz.
Fim de baile
- Os empresários brasileiros começam a desconfiar que a festa da energia barata acaba de desligar o som e a luz. A comoção nacional do apagão (que ainda não houve) vai desaguar em tarifaço oblíquo, vestido de sobretaxas para sobrecotas no tal de MAE, mercado atacadista tipo ‘‘spot’’ (bolsa).
Home made
- E tome o rali de Dacar corporativo na direção da geração própria (distributed power) em fazendas, fábricas, escritórios, lojas, shoppings, bancos, escolas, hospitais, delegacias, condomínios, estádios, clubes, teatros, cinemas, hotéis, motéis...

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