‘‘A crise de energia já deu uma boa melhorada em Brasília: eles passaram a trabalhar também às segundas e sextas.’’
José Maria de Jesus, eletricista chocado
A crise da crise
A Câmara da Crise está realmente em crise. Ela não consegue sequer editar uma Medida Provisória que seja definitiva. Prefere atirar no escuro para ver e ouvir se a coisa cola. Como nem tudo cola, ao desgaste físico do sistema elétrico juntam-se o desgaste político do governo imprevidente e o desgaste jurídico do programa desconexo.
Que o diga o descarte sumário do Código de Defesa do Consumidor (CDC), já em seu décimo ano de gloriosa carreira. Outra vez ‘‘pego de surpresa’’, o presidente Fernando Henrique Cardoso ordenou a reedição da MP trapalhona para restaurar a plenitude dos direitos do consumidor pessoa cívica. O presidente suspirou fundo:
‘‘As medidas não foram bem compreendidas. Ou porque não foram bem explicadas ou porque não são de fato razoáveis.’’
Pelo sim, pelo não, a crise da crise colocou em rota de colisão o ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, e o ministro do Racionamento, Pedro Parente. O primeiro sugeriu a decretação do ‘‘estado de emergência’’ e o segundo descartou de bate-pronto essa medida de guerra: ‘‘Não se falou nem se pensou nisso, até porque ainda estamos longe disso.’’
Faiscando no blecaute legal do programa de racionamento, o advogado-geral da União, Gilmar Mendes, disse que o tratamento diferenciado e favorecido que passa a ser dispensado aos consumidores residenciais, sob o guarda-chuva do CDC, ainda poderá ser negociado também com os consumidores de ‘‘certos segmentos’’ da indústria, do comércio e dos serviços essenciais.
Em resumo: o programa da Câmara da Crise ainda nem entrou em vigor e já solta vapor por todos os furos. A tal ponto que as entidades patronais e as centrais sindicais articulam urgente marcha a Brasília para exigir assentos do setor produtivo na dita Câmara da Crise. Ainda haveria espaço político para a renegociação de cotas, metas, multas, cortes, tarifas, tributos, créditos, liminares...
Vide, a respeito, nossa coluna de domingo (Pró-Arca? Pró-Anta?). Parece que a modelagem do programa de racionalização e/ou racionamento, até por falta de tempo para a gestação das medidas ‘‘razoáveis’’, acabará mesmo convergindo para um tarifaço do tipo bode russo. Tanto mais porque a Fipe/USP avisa que a inflação do apagão trombeteado deu de baixar agora em maio, contrariando a sinistra cartomancia dos apocalípticos de sempre.
A verdade é que a crise está realmente em crise. Por uma simples e boa razão: não haverá inocentes a bordo dessa arca de Noé ainda não construída e até aqui tão mal projetada.
Secos & Molhados
Alternativas - Os grandes consumidores industriais dos ramos eletrointensivos ainda não ajustaram alternativas para a redução compulsória de até 25% da energia consumida. Os que produzem toda a energia que consomem também brigam no rodapé da Câmara da Crise por um alvará de exclusão do racionamento.
Pão quente? - Pão quente não mais a toda hora, anuncia Vera Loyola. Dona da rede de padarias Biruta, no Rio, a futura apresentadora da GNT diz que vai desfilar crachá de empresária traída: ‘‘Mandaram a gente trocar o fogão a lenha pelo fogão elétrico, lembram-se?’’
Fim de tudo - Enquanto isso, a revista IstoÉ/Dinheiro sapeca Antonio Ermírio de Moraes na capa: ‘‘Eu não consigo mais dormir. Perdi dez anos de trabalho.’’ Título da capa: O Brasil Arrasado.
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