Joelmir Beting
Na crise de energia, ninguém sabe ainda como se faz a coisa certa.Mas quase todos já sabem, finalmente, como se faz a coisa errada. Juliano Bastide, sociólogo
Apagão? Feriadão
A idéia não é piada. Uma redução linear de 20% no consumo de energia poderia ser obtida, teoricamente, pelo atalho mui tupiniquim de um feriadão por semana, de junho a dezembro. A gente folgaria na segunda-feira, suprimindo um dia em cada cinco do batente semanal. Algo parecido com a nova semana francesa de 35 horas.
A proposta foi depositada na mesa da atarantada Câmara da Crise, vulgo Ministério do Apagão, pelo economista José Augusto Savazini, da FEA/USP, e pelo empresário Fernando Quartim, do Grupo Rede. Ambos sustentam que o feriadão, sobre ser de fácil implementação, produziria menos danos na economia e na carestia que o apagão punitivo e/ou o tarifaço corretivo. A poupança de energia seria uma festança coletiva.
Liberada do complicadíssimo programa de racionalização e/ou racionamento ainda inconcluso - e já com direito a uma avalanche de ações judiciais preventivas -, a Câmara da Crise voltaria seu foco para um pacotaço de medidas pró-aumento da oferta, enquanto teria mais calma e mais palma para arredondar o pacotaço mal costurado pró-redução do consumo. Ou do desperdício nacional bruto.
Ocorre que o feriadão anoréxico teria de contar com três cúmplices sob medida: 1) a contenção maior do consumo doméstico na folga familiar de três dias; 2) a não realização de horas extras pelas empresas nos quatro dias de trabalho; 3) a cota de privação ou renúncia (mais uma) da classe trabalhadora - que ficaria sob o facão do corte de salário, do corte de emprego ou do aumento do produto por hora trabalhada.
O certo é que falta quilowatt, mas sobra vacilação. A Câmara da Indigestão da Crise já admitiu rever a Resolução 001. Em vigor desde 15 de maio, essa piada de humor negro proíbe o aumento da carga para novos projetos, novas empresas e até mesmo para obras em andamento. Um apagão mental que congela em pleno ar o salto da bailarina: a formação de capital fixo na economia em expansão, em reposição, em diversificação, em modernização. Estado de guerra!
A construção civil já avisou que vai entrar pela tubulação. Haverá desaceleração ou mesmo paralisação de obras já iniciadas ou em acabamento. Presidente do Secovi/SP, Romeu Chap Chap lembra que a Resolução 001 resultará em quebra de contratos por atraso ou por suspensão de entrega, com graves perdas legais e morais para todo o mercado da construção.
Além, claro, do descarte de 110 mil trabalhadores, agora em junho, ao longo da cadeia produtiva do construbusiness. Por onde trafegam 14% do PIB verde-amarelo de susto.
Secos & Molhados
Consórcios
Uma atenuante para o veto a novas ligações e a recargas a ligações já existentes estaria na adoção de consórcios de consumo numa mesma cadeia produtiva. A idéia é de Mauro Arce, eletrocrata lúcido, que está secretário de Energia do Estado de São Paulo.
Com cintura
A coisa funcionaria assim: as cotas ou as metas de consumo seriam definidas por cadeia produtiva. A sobra de uma seria contabilizada para a falta de outra. O esquema valeria para as cadeias mais visíveis e encadeadas, do tipo montadora: construção civil, automóveis, eletroeletrônicos, confecções, embalagens, entre outras.
Megausinas
Pelo lado da oferta, Brasil para a frente e para o alto, desengaveta-se o ufanismo militar das megausinas amazônicas. Só no caudal colossal do Xingu haveria condição (já checada pela Eletronorte) para dois aproveitamentos de 11 mil MW cada um. Começando pela alça de Altamira.
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