Joelmir Beting
O maior azar de todos os governos é que justamente os partidos que não fazem parte dele são os únicos que sabem governar.
Jorge Luiz Borges (1899-1986), escritor argentinoSem bola de cristal
Qual será o verdadeiro impacto do choque de oferta da crise de energia na evolução encadeada do produto, do emprego, do crédito, dos juros, do câmbio, das receitas, dos déficits, dos custos e dos preços? Quando? De junho a dezembro de 2001, com sobras para 2002, tempo de eletricidade por um fio de barba.
Tudo vai depender de duas variáveis que só poderão ser sopesadas, com relativa segurança, ali pela altura de agosto. A primeira delas: o verdadeiro poder de fogo do programa de contenção forçada do consumo de energia, ainda sem um formato e sem um conteúdo definidos.
A segunda variável: a verdadeira resposta da economia e da sociedade ao fantasma do apagão, a partir de decisões e de ações de poupança voluntária das empresas e das famílias. De resto, cruzada nacional já iniciada, porque de repente favorecida pela percepção coletiva de margens asininas de gastança e de ineficiência nos usos e nos abusos da força e da luz.
Não estamos na Suíça nem no Japão. Na ponta da demanda, temos um elástico enorme e frouxo para puxar em matéria de racionalização ou de conservação de energia. E, na base da oferta, outro elástico ainda maior e mais frouxo para a reaceleração e a diversificação da matriz energética. Se devidamente privatizada.
Faltava caprichar na poupança do precioso insumo. Para variar, não havia como reeducar o consumo dentro de uma secular cultura da abundância, irmã siamesa da cultura do desperdício. Eis que o safanão desferido pela atual chantagem emocional do apagão no futuro (pretexto para um tarifaço oblíquo aqui no presente) passa a realizar a catequese do sabendo usar não vai faltar.
O professor Edward Amadeo, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, diz que só em julho ou agosto o governo terá condição técnica para avaliar os impactos reais da crise nas variáveis econômicas do País. Bingo!
Na mesma linha, o professor Ilan Goldfajn, diretor de Política Monetária do Banco Central, diz que ainda é cedo para desenhar o cenário mais provável ou mais confiável para 2001/2002. Ele arrisca: a perspectiva é desconfortável, mas não é desestabilizadora (ainda que, por enquanto, neurotizante).
De pleno acordo. Desde, claro, que o Copom, reunido desde ontem, com a mão direita no garrote dos juros (e do crédito bancário), não eleve ainda mais o piso da Selic, aumentando a aflição dos aflitos.
Secos & Molhados
Veneno
Seguinte: choque de oferta de energia está mais para inflação de custos que para inflação de demanda. Crédito mais caro e mais curto é remédio duro para soluços de inflação de demanda. Mas tem pinta de veneno puro quando aplicado em espasmos de inflação de custos.
Custos
Inflação de custos reatiçada pela bolha cambial do trimestre março/abril/maio. Mas nada a ver com a escalada do IPCA em abril - provocada mais por verduras, bananas e picanhas do que por repasses cambiais.
Tarifaço
A verdade é que o programa de racionalização (alternativa para o racionamento) disfarça o tarifaço aí pela proa com o eletriquês de cotas, metas, taxas, multas... Sem contar as rações de suprimento complementar no mercado atacadista de energia (já inflacionado em mais de 250%).
Basta isso
Ali pela altura de outubro, conservação de energia acima do racionamento de 20%, tudo estará resumido a um tarifaço oblíquo e chocante. Só falta expurgá-lo, desde já, do IPCA.
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