Joelmir Beting
O Brasil ainda cultiva o fetiche das fórmulas complexas para resolver problemas simples. Ou vice-versa.
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
Efeito bug?
Lembram-se da vigília global do bug do milênio? Porque os computadores idiotizados trocariam o 00 do ano 2000 pelo 00 do ano 1900 - com recuo de um século no réveillon retrasado -, o mundo inteiro, Brasil no meio, quase fugiu para o planeta Plutão.
Deu capa na Time: vem aí o Doomsday (o Dia do Juízo Final).
Consultores, informatas e advogados avisaram que haveria colapso global nas telecomunicações, colapsos regionais nas redes elétricas, colapsos pontuais em bancos, fábricas, transportes e hospitais - incluído o risco da explosão de reatores nucleares e do disparo erradio de mísseis em pane carregados de ogivas atômicas.
Consultorias jurídicas não deixaram por menos: avalanches de processos judiciais indenizatórios poderiam totalizar dezenas de bilhões de dólares. Com a falência em cascata de seguradoras gigantes nos dois lados do Atlântico Norte.
Até o taciturno Alan Greenspan meteu sua colher chipada no caos com data marcada. Em depoimento no Senado americano, em março de 1999, o senhor dos mercados não descartou uma recessão global em 2000/2001, já sob os escombros do bug.
Aqui no Brasil, afinado com neuras nacionais e com paranóias importadas, cuidamos de juntar a aposta no estrago do bug com a desgraça na fuzarca do câmbio. Com a ligeireza analítica de sempre, a maioria dos cenaristas projetou para o triênio 1999/2001 uma nova quadra de estagflação - a partir de uma máxi cambial de 80%, no fevereiro pós-banda. Falou-se em inflação anual de 35%, em recessão de 7%, em moratória de agosto... Era o velório do real.
Eis que entra em campo, em maio de 2001, o Efeito Apagão.
E tome nova overdose recheada de álgebra dos arautos do Apocalipse. Projeções de um corte linear de 20% no suprimento de eletricidade, por até sete meses corridos, apontam para um corte de até dois terços na taxa gregoriana do PIB (que despencaria de 4,5% para 1,5%). Com direito a uma recarga de no mínimo um terço no IPCA do ano (que escalaria da meta de 4% para algo acima de 5,2%).
Fiquemos com os fatos: 1) não haverá corte linear de 20%; 2) um quarto do setor industrial reside fora das regiões afetadas; 3) empresas, famílias, entidades, governos e cidades já partiram para a cruzada nacional contra o desperdício da força e da luz; 4) um desperdício, por baixo, de 15% da energia gerada; 5) gastança agravada, em mais 12%, pela carroça energívora de máquinas, aparelhos, lâmpadas, sistemas e processos tecnologicamente obsoletos e preguiçosos.
Secos & Molhados
Lipoaspiração
Em resumo, não é preciso fazer curso intensivo de eletriquês para sacar que a margem de gastança de energia é bem maior do que a gente imaginava antes da crise virar neura. Tanto assim que a poupança do precioso insumo já foi acionada pela economia e pela sociedade.
Quase metade
Neste último fim de semana (pela média dos três anteriores), as distribuidoras detectaram uma redução no consumo residencial de 9% no eixo Rio-São Paulo-Brasília. Ou de 13% na Grande São Paulo na manhã de domingo.
Um desastre?
Ora, reduzir o desperdício de energia e elevar a eficiência energética do sistema produtivo é uma solução e não um problema. Ainda que pelo atalho bem Brasil da chantagem emocional do apagão, o clamoroso esquema do racionamento tende a ser abortado pelo advento supimpa do sabendo usar não vai faltar, vulgo racionalização. Sem estagflação.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





