Joelmir Beting
Sem luz? Leia
Escapou por um triz do apagão a Bienal Internacional do Livro, instalada anteontem no Riocentro. E, com as editoras simulando o crescimento das vendas do nobre produto por linhas tortas, haverá de crescer o índice de leitura na redução do trabalho e no bisturi da televisão. Dá para consumir um bom livro à luz de um par de velas.
Elástico para puxar é o que não falta no mercado brasileiro do ramo. A coisa não tem passado de 2 livros por habitante/ano. Contra 9 x 1 nos Estados Unidos, 12 x 1 na França ou 14 x 1 no Japão (Unesco, 1999). Ou 5 x 1 aqui ao lado, na Argentina.
A Câmara Brasileira do Livro coça a cabeça. Livrarias são como peixarias espécie em extinção no varejo brasileiro. Enquanto o mercado metropolitano embarca no modelo americano da megastore de livros e discos, com braço virtual nas picadas da perecível Amazon.com, o número de livrarias ou de pontos-de-venda decresce em todo o País.
Elas não chegam a 2.000 (segundo distribuidoras de cobertura nacional). Ou 1 livraria para cada 85 mil habitantes. Em Portugal, 1 para 6.800. No Japão, 1 para 4.350. É bom parar por aqui. Já imaginaram comparar o número de bibliotecas no Brasil com o dos Estados Unidos ou com o da Europa? Faltam-nos bibliotecas até mesmo em escolas de nível superior...
A indústria editorial faz o que pode. Depois de bater no fundo do poço em 1999, com recuo de 19% na produção, de 14% nas vendas em valor e de 32% nas vendas em volume, ela voltou a ver céu azul no ano passado. A expansão foi de 12% em produção, de 15% em vendas e de 13% em faturamento. Com boa recarga no lançamento de novos títulos.
A Bienal do Riocentro, em sua décima edição, revela que o mercado ainda não se deixou contaminar pela sinistrose do apagão. São 808 expositores (recorde), 1.220 lançamentos (recorde) e, até amanhã, 440 mil visitantes (recorde), 260 mil estudantes (recorde).
O fantasma que perpassa por todos os stands nada tem de compêndio de esoterismo. É o da escalada do dólar. Ela impacta os custos da importação de papel, tinta, máquinas, processos, serviços e direitos. Além, claro, dos fantasmas recorrentes do arrocho bancário e do garrote tributário.
Para o Fisco da anta, livro ainda é artigo de luxo, de consumo supérfluo ou suntuário. Tem sido mais fácil arrancar incentivos fiscais para filmes e carros do que para livros.
SECOS & MOLHADOS





