Joelmir Beting
Será que a sociedade brasileira poderá sobreviver sem assistir a jogos de futebol à noite? Eu penso que sim.
Euclides Scalco, presidente da Itaipu
Futebol com sol
Se racionamento de energia é proibir a bola e o circo quando a coruja sai da toca, o Corinthians teve a subida honra de inaugurar a salvação da pátria entrechocada na fria tarde paulistana de ontem. Um dia antes do anúncio oficial do primeiro pacotaço de poupança de energia. Já em sua quinta versão em três semanas.
Pacotaço de chumbo pelo lado da demanda menor. Com a promessa, para junho, de um pacotaço de incenso pelo lado da oferta maior. São as primeiras decisões, com pelo menos dois anos de atraso, da debutante Câmara de Gestão da Crise de Energia, vulgo Ministério do Apagão.
O racionamento verdadeiro, do que já foi antecipado até ontem, não está em proibir corridas noturnas no Jockey ou em apagar um poste em cada três nas ruas e avenidas de todas as cidades. O tranco forte vem pelo flanco da proibição sumária de novos aumentos de carga em obras em andamento na construção civil ou em projetos de instalação de novas fábricas ou de novas lojas.
Que o diga a engenharia da TGM, de Sertãozinho, SP. No coração da agroindústria canavieira mais poderosa do País (a da região de Ribeirão Preto), a TGM vai ter de reduzir em até 20% seu consumo de energia. Algo parecido com um corte de 12% na carteira de pedidos da clientela (usinas de açúcar e destilarias de álcool).
Segurem-se nas cadeiras: a TGM produz turbinas para co-geração de energia elétrica a partir da queima de montanhas de bagaço de cana - cuja safra anual começa agora. A empresa acaba de suspender o registro de novas encomendas... Pode?
A biomassa de rejeito da agroindústria paulista, com a safra dos canaviais ocorrendo caprichosamente na entressafra dos mananciais, estoca uma energia do tamanho de 1.300 MW. Ou algo parecido com toda a energia potencial do complexo nuclear vagalume de Angra.
O empresário-brigador Maurílio Biagi Filho, que é do ramo, suspira fundo: Parece que vamos outra vez escrever certo por linhas tortas. Assim como a crise do petróleo descortinou o uso automotivo do álcool, a crise da energia vai enobrecer o aproveitamento do bagaço. Até porque essa tecnologia já está madura e é 100% brasileira. Ela vem sendo depurada há duas décadas, a partir de um desenvolvimento conjunto da Zanini, de Ribeirão, com a Dedini, de Piracicaba.
O problema é que o monopólio estatal da energia, com sua arrogante eletrocracia da abundância, proibia a queima do bagaço para co-geração dentro das próprias usinas e destilarias esmagadoras da cana...
Secos & Molhados
Sugestão
As centrais sindicais propõem redução da jornada com redução equivalente do consumo de energia. Faltou sugerir o aumento da produtividade por hora trabalhada, escoltado pelo aumento da eficiência energética por unidade de produto.
Solução?
A equipe econômica pondera: haverá redução do produto e do emprego, com queda na extração de tributos e encargos. Mas a perda de receita na desaceleração da economia poderá ser compensada pelo aumento do imposto inflacionário amoitado na reativação da carestia. Viva, pois, a estagflação!
Supimpa
Se assim é, as centrais bem que poderiam decretar greve geral em toda quarta-feira. A poupança de energia seria linear e da ordem supimpa de 20%. Claro, com futebol só com sol.
E o dolar?
Enquanto isso, os doleiros de atalaia esfregam as mãos de alegria: 1) os argentinos vão continuar caindo do ministro Cavallo; 2) e os brasileiros começam a cair do cavalo-vapor.
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