‘‘São as águas de maio fechando o verão. Promessa de alívio em nosso apagão.’’ José Maria de Jesus, parodiando Tom Jobim
Blecaute mental
São Pedro ensaia chover mais no Sudeste, neste outono refrescado de maio, que em quase todo o verão estupidamente quente e seco do eixo Rio-São Paulo-Brasília. Antes tarde do que nunca, suspiram os eletrocratas de prontidão, a um passo do tarifaço e/ou do racionamento.
Esse capricho da natureza não alivia o vexame político de um Brasil que se deixou ficar refém de uma secular cultura do desperdício e da imprevidência. Cultura cevada pela não menos secular percepção coletiva da fartura e da abundância - inaugurada com todas as letras de pena de arara por Pero Vaz de Caminha.
O curioso é que estamos bem acompanhados nessa síndrome do apagão. A Califórnia americana, com PIB maior que o do Mercosul, também acaba de ligar a contagem regressiva para um continuado plano de ‘‘contingenciamento’’ da energia. Sob a supervisão de um recém-criado Comitê da Crise, que atende pela sigla de Nerc. No exato figurino da nossa debutante Câmara de Gestão da Crise de Energia. Tenta-se evitar na Costa Oeste o caótico apagão de 1965 na Costa Leste.
Dramatizado pelo último relatório do Nerc, o salão oval da Casa Branca de susto respondeu de bate-pronto na quarta-feira: 1) retomar a toque de caixa o programa da energia nuclear, interrompido desde 1978; 2) retomar o programa de extração do petróleo e do gás do Alasca, interrompido desde 1985; 3) reafirmar a intenção americana de não mais ratificar o tratado global de Kyoto - o do combate ao ‘‘efeito estufa’’ destilado pela queima de combustíveis fósseis, vulgo poluição da riqueza.
O que aconteceu na Califórnia? Houve a privatização da propriedade na cadeia GTD (geração, transmissão e distribuição), mas não a desestatização da autoridade na operação do mercado. O governo estadual pegou o atalho do populismo energético: congelou tarifas, defasou repasses e afugentou investimentos em GTD. E até para provar que o governo estava errado, os operadores privados ‘‘desinvestiram’’ ainda mais e inflacionaram a tranche das tarifas em liberdade no mercado ‘‘spot’’ suplementar.
Algo parecido se dá entre nós, não é de hoje, no ‘‘front’’ da energia, ainda que não na base do petróleo. Nada menos de 33 futuras usinas a gás natural saíram para o acostamento, antes mesmo da largada do Programa Prioritário de Termoeletricidade. E não por falta de chuvas, mas por falta de regras. Prioritário quanto, onde e como?
Secos & Molhados
Vai ligar? - Será que o parto da montanha da quinta versão do plano da crise em três semanas, cesariana marcada para amanhã, dará à luz alguma definição sobre a tarifação das usinas a gás? Os investidores privados não abrem mão da dolarização anual das tarifas.
Já existe - Dolarização é palavrão? Uai! Todos os derivados da Petrobrás estão devidamente dolarizados numa tal de conta-petróleo mais hermética que caixa-preta de caça-espião do Pentágono. Mesmo com o petróleo-é-nosso escalando de 17% para 78% do consumo interno.
Vem do sul - E o que dizer da energia da faraônica Itaipu binacional? Ela é comprada em dólares por distribuidoras que faturam em reais. Culpa do Paraguai? Ora, o Paraguai só entrou com o endereço - o da banda ocidental do gigantesco reservatório (que dá para ser visto da Lua em noite de Terra cheia).
Falta mais? - Só faltava essa: uma CPI do apagão. Se depender da oposição, agora não falta mais nada.
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