‘‘O Brasil ainda corre o sério risco de chegar à decadência sem antes passar pelo apogeu.’’
Jô Soares, humorista e escritor
Energia própria
Instala-se, nesta quarta-feira, na cidade francesa de Nice, o simpósio internacional Distributed Power 2001. Na pauta, os avanços do sistema de ‘‘energia distribuída’’ (não confundir com distribuição capilar de energia). O conceito ‘‘distributed power’’ é no sentido de ‘‘energia distribuída por geração localizada’’, com o espalhamento das fontes geradoras no rodapé das unidades consumidoras. Caso do autoconsumo de fábricas, shoppings, hospitais, laboratórios, hotéis, clubes, condomínios e locais remotos de acesso oneroso.
Vai daí que essa tal de energia distribuída por geração localizada tem tudo a ver, entre nós, com miniusinas térmicas a óleo, a gás e a biomassa. Com sobras para as alternativas do tipo solar, eólica, miniquedas d’água e certos expedientes de co-geração.
Palestrante em Nice, o consultor brasileiro Newton Figueiredo lembra que na raiz da atual crise brasileira de energia também figura ‘‘nossa insopitável vocação para megaprojetos de qualquer coisa’’. Assim como nas tecnologias da computação dos anos 60 o futuro em todo o mundo era refém dos grandes computadores (mainframe), nos projetos da ‘‘eletrificação’’ brasileira dos anos 70 a ordem era instalar hidrelétricas de grande porte para um potencial hidrológico de tamanho descomunal (e até hoje ainda não inventariado de todo).
Presidente da Newmar Energia, Newton Figueiredo diz que esse complexo de ‘‘elefantíase energética’’ também bate ponto no recém-lançado (e já engripado) Programa Prioritário de Termoeletricidade. São 49 usinas a gás natural e todas de grande porte. Atropela-se, para variar, a opção ‘‘distributed power’’, hoje servida por microturbinas a gás, com custo baixando de US$ 800 para US$ 600 o kW instalado.
Outro consultor da área, Carlos Senna Figueiredo, na revista Conjuntura Econômica (dezembro 2000), igualmente questiona o programa brasileiro das usinas a gás. As novas térmicas deveriam ter sido lançadas como unidades de estoque e não como unidades de fluxo. Se de fluxo, com mercado cativo e perene, elas não darão cintura ao sistema. Ali na frente, com os 42 reservatórios das 12 bacias hidrográficas voltando a represar pelas respectivas médias históricas, ‘‘não é descabido imaginar que viremos a menosprezar a água de Deus, enquanto queimamos gás importado...’’
Nas modernas miniusinas, o gás natural acabará prevalecendo sobre o óleo combustível (ou o diesel ainda subsidiado). Contingência ambiental. Já imaginaram a poluição química do óleo queimado em geração localizada de fábricas, shoppings, hospitais, condomínios, cidades?
Secos & Molhados
Referência
- A energia distribuída por geração localizada ganhou mercado e prestígio na Europa e no Japão a partir do duplo ‘‘oil-shock’’ da Opep, nos anos 70. Ainda que competindo com sistemas elétricos ‘‘otimizados’’ pela mesma crise, as soluções de ‘‘distributed power’’ revelaram-se, desde então, de 20% a 30% mais baratas e confiáveis.
Novo salto
- Com a recaída do furor opepiano, faíscam novas tecnologias a gás natural para a geração localizada. A nova onda ocorre nos Estados Unidos, com a competente contribuição dos apagões da Califórnia. A busca da eficiência energética passa a dar carona à confiabilidade (ou não) do suprimento da própria.
Sinal verde
- A opção ‘‘distributed power’’ tornou-se viável a partir da desregulamentação dos monopólios e oligopólios de energia (estatais e privados). Aqui no Brasil, era proibido usina de açúcar ou destilaria de álcool sacar eletricidade do próprio bagaço de cana.
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