‘‘A boa engenharia nada mais é que a parceria da física com o bom senso.’’ Luiz Cintra do Prado, da Politécnica (USP)
Depende da gente
Seguinte: ninguém vai poupar um mísero quilowatt de energia. Então, o racionamento médio de 20%, de junho a dezembro, deve abortar um terço do PIB encadeado no ano e aumentar de um quinto o IGP gregoriano. Palavra da FGV.
O choque vai bater ainda mais fundo: 850 mil novos empregos deixarão de ser lançados sob o apagão. Com o lembrete: o mercado formal de trabalho, com o setor industrial crescendo 7,1% no primeiro trimestre, vinha registrando, até março, em 15 meses corridos de reversão da sinistrose verde-amarela, uma expansão líquida de 100 mil novas carteiras assinadas por mês.
Judiação! Castigo também para o governo trapalhão: perda de R$ 15 bilhões na arrecadação federal do ano. Tanto quanto ela esperava entesourar agora em maio. De janeiro a abril, as burras federais encaixaram 10,4% a mais em valores nominais ou 0,39% em valores reais. Estabilidade fiscal também na mira do blecaute.
E mais: institutos, consultorias, simulações e chutometrias adiantam que o uso intermitente da energia de ponta reduzirá investimentos plurianuais das empresas. Incluídas as novas transfusões de capital produtivo das multinacionais - rebaixando o potencial de financiamento do déficit externo em conta corrente.
E ainda: jornadas menores de trabalho, sem reposição de ‘‘banco de horas’’, recolocarão no declive o rendimento médio dos trabalhadores. E o meia-volta-volver da distensão bancária da economia, que se antecipou argentinamente ao alerta máximo do apagão, projeta para 2001 créditos mais caros e mais curtos que os de 2000. Os sete maiores bancos de varejo estavam a fim de expandir as respectivas ofertas em até 35% ao longo do ano. Com juros no declive - na hipótese agora remota de um novo viés de baixa na Selic. Recarga que encarece o próprio serviço da dívida pública.
Em resumo: projeções juradas fortes de um corte médio de 20% na energia (até então segura e barata) vestem a camisa de chumbo da ‘‘estagflação’’. Com a competente gravata de piche de certas mídias alarmadas, geradoras de manchetes alarmistas.
Mas o cenário descrito acima não seria realmente um desastre, com pinta de vexame? Sim - na hipótese de não se obter ganhos expressivos e imediatos no ‘‘front’’ ainda por fazer da conservação de energia. Certo?
Ocorre que os cenaristas, solertes em adivinhar os estragos do apagão, não se lembraram de simular, com idêntico rigor metodológico, os diferentes graus desse impacto a partir não dos diferentes níveis de racionamento, mas dos diferentes índices de poupança energética da economia e da sociedade.Secos & Molhados
Substituição
Entenda-se por conservação de energia algo mais que o apagar das luzes ou o puxar das tomadas. Há que se contar com a substituição de máquinas e processos de baixa eficiência energética - em toda a cadeia produtiva. Em defesa do próprio bolso, do próprio cofre, do próprio lucro.
Alternativas
Destaque igualmente para a busca tempestiva da energia alternativa. Nossa matriz energética tem cintura para deitar e rolar. E não apenas a da opção do gás natural. Claro, desde que a falta de regras das térmicas não prossiga maior que a falta de chuvas nas represas.
Desperdício
No mais, o que realmente deveria pesar em qualquer cenário chutado para 2001/2002 é a nossa asinina margem de desperdício de energia na economia e na sociedade. Uma gandaia do exato tamanho do racionamento esboçado. Digno, não de cortes nas tomadas. Mas de choques nas tarifas.
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