‘‘Na poupança de energia, o Brasil só deve apagar o que pode. O problema é não querer desligar nem metade do que deve.’’
Jayme Denot Ribeiro, consultor
Gandaia energívora
No princípio, era o verbo. Crise de energia? Que crise? Dizia o governo: a) andam fazendo terrorismo com uma fantasiosa carência estrutural do sistema; b) só pode ser o jogo duro de lobistas a serviço dos fornecedores de máquinas, dos empreiteiros de novas usinas e dos pregadores da privatização selvagem das grandes geradoras.
Hoje, apagão por um triz, tem-se que a falta de transparência na avaliação e no enfrentamento da crise deve ter retardado as medidas de contenção dos estragos em pelo menos um ano. Quer dizer: o que teria sido um ajuste de 5% já virou um rombo de até 35%. Eis o tamanho do déficit potencial, segundo o distraído Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
E não por falta de aviso. O consultor Lindolfo Ernesto Paixão, que trabalhou na reestruturação (engavetada) do sistema, repassa o atual descompasso entre geração e consumo. De 1990 a 2000, a oferta cresceu em 18 mil megawatts para uma demanda que saltitou em mais 28 mil. Sem contar o atraso em novas linhas de transmissão e o desgaste das usinas já em operação.
Só faltava uma (des)regulamentação trapalhona no rodapé da (des)estatização idem. Pois agora não falta mais nada. Certo? Errado. Como desgraça pouca é bobagem, o governo inapto ou inepto não consegue sequer definir um programa holístico de amaciamento da crise. O que era cota com multa virou cota com prêmio. Em seguida, a cota virou corte. Agora, discute-se o tarifaço no lugar do racionamento...
Única certeza: o desperdício nacional de eletricidade é uma grandeza digna de um tratamento de choque de 200 volts no consumidor pelado em piso de pedra debaixo da ducha... Estamos deixando escapar pelo ralo cerca de 15% da energia gerada - sem contar perdas de até 40% da água encanada! O problema é que essa gandaia energívora, cevada pela nossa secular ‘‘cultura da abundância’’, só respeita uma solução, espécie de cirurgia sem anestesia: o tarifaço purgativo e catequético.
Por exclusão. O racionamento físico, com cortes pontuais de suprimento, sobre fazer o jogo sujo da estagflação, rebaixa o consumo presente, mas não estimula a oferta futura. Simplesmente porque não encoraja novos investimentos na infra elétrica, ao tempo que afugenta investimentos nos demais setores da economia.
O tarifaço mata os dois gambás com uma só descarga elétrica: espanca o consumo de hoje e reativa a geração de amanhã. E a estagflação? Ela será tanto menor quanto maior for a margem de conservação.
Secos & molhados
Chutometria
O que também não falta é simulação apressada dos abalos da crise de energia nos fundamentos da economia. Os cenários divulgados até ontem continuam menosprezando a ‘‘queima de gordura’’ que reveste o consumo perdulário da energia. Seja ele da indústria, do comércio, da cidade, da família.
Dando tempo
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, disse ontem que simulações confiáveis teriam de aguardar pela definição das regras do jogo do racionamento e/ou tarifaço. E ainda: deveriam ser recalibradas pelo potencial de racionalização dos usos da energia - a partir dessa definição das regras do jogo.
Tem elástico
Sobre o tarifaço corretivo, é bom lembrar que estamos pagando pelo kWh pouco mais da metade do que pagam os hermanos argentinos (com sobras de energia). Ou apenas um terço do que hoje pagam europeus e asiáticos. Daí para o desperdício...
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