‘‘O que travou o setor elétrico foi a falta de competência. Incompetência camuflada pela falta de transparência.’’
Antonio Ermírio de Moraes, empresário
Apagão ou Serjão?
Quem não tem Serjão ataca de apagão. A crise de energia nada mais é que uma crise de falta de regras e não de falta de chuvas. A gasosa privatização do sistema, iniciada há quase uma década, carece de um limpa-trilhos chamado Sérgio Motta. Ele modelou e executou a desestatização das telecomunicações na raça e no grito.
O que não falta é apetência do setor privado nacional e estrangeiro pelo mercadão da energia. Desde que se tenha na mesa uma definição das regras do jogo. Ou antes: definição da própria natureza do jogo. Os eletrocratas de carreira não conseguem falar a mesma língua nem remar na mesma direção. Eles ainda cultivam divergências conceituais e ciumeiras profissionais sobre matérias estritamente técnicas.
Pior ainda. Eles acabam interceptados, de cima para baixo, por senadores e deputados de ocasião, nomeados para cargos de decisão por um modelo político anacrônico e trapalhão: o da partilha pactuada de ministérios da produção entre partidos da base do rei. São parteiras curiosas que, de energia elétrica, só entendem do medo de choque na tomada da sala. Ou do grampo.
De baixo para cima, os eletrocratas continuam patrulhados por um corporativismo neo-estatizante que não vacila sequer em sabotar mudanças por dentro e programas para fora. Apoiados pelo mesmo modelo político que fez dos monopólios estatais uma Casa da Moeda do clientelismo, do cartorialismo, do empreguismo, do eleitoralismo. Com sobras para o propinódromo no rodapé de projetos e de contratos de bilhões.
Com a desestatização arrependida do sistema, adiciona-se ao imbróglio (des)regulatório o choque de interesses do setor privado na operação de um negócio estruturalmente verticalizado, de padrão Infra GTD - geração, transmissão, distribuição. Agora acrescido de novos ‘‘fronts’’ de atrito: diversificação da matriz energética, conservação de energia e racionamento por cotas e/ou cortes.
Racionamento? Nem isso o setor consegue definir e decidir. Os ‘‘peritos’’ do ramo bolaram uma contenção pusilânime de consumo. Sobre ser economicamente caricata e socialmente injusta, revelou-se juridicamente asinina: ignorava as relações contratuais de suprimento no setor industrial.
Resultado: a um passo da canetada, o plano foi rasgado pelo presidente da República em rede nacional de televisão. No mesmo ato, improvisou prêmios para contas de consumo abaixo das cotas - em vez de multas para a gastança acima delas. No dia seguinte, optou por cortes no lugar de cotas...
Secos & Molhados
Dando tempo
Então, na hora do martelo do tal de Conselho Nacional de Política Energética, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, teve de falar mais alto: dá para tomar uma Kaiser antes? Que tal a gente avaliar, em mais duas semanas, o impacto dos cortes na produção, no emprego, na inflação, na receita, no câmbio, nos juros? Aí, a decisão (ou falta de) ficou adiada para o dia 23.
Todos perdem
Rápidos no gatilho, institutos e consultorias sustentam que os apagões em rodízio, se da ordem de 20% da oferta, até dezembro, terão massa crítica para abortar até um terço do PIB anual (de 4,5% para 3%). Com perdedores líquidos já escalados: dezenas de milhares de demitidos nas empresas a meia força ou a meia bomba.
Enquanto isso
Pelo lado da oferta de energia, a falta de regras (tarifárias) adequadas engaveta a construção das termoelétricas a gás. A gigante americana AES simplesmente acaba de desistir de nove usinas orçadas em US$ 2,5 bilhões. Ah! Retirou-se do leilão da Cesp-Paraná e cancelou a festa de inauguração da primeira delas, a de Uruguaiana, dia 21. Que teria discurso enérgico de FHC.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup