Joelmir Beting
O problema do setor elétrico não está na falta de chuvas. O verdadeiro desvio de rota ainda está na falta de regras.
José Luiz Alquéres, consultor
Apagar ou pagar
Crise brasileira de energia! Quem diria? Adianta agora chorar sobre o leite derramado, execrando esse ou aquele culpado? Não foi por falta de aviso prévio. Essa caçapa furada foi devidamente cantada, desde o triênio 1995/97, por consultores e investidores privados do ramo. Todos eles sistematicamente contestados pelas autoridades planaltinas, tangidas pela cultura política da contemporização.
Risco de racionamento? Que asneira! Na versão oficial, tudo não passava de choradeira maquinada por lobistas nacionais e estrangeiros, insatisfeitos com os marcos regulatórios da privatização do sistema.
Eis que o Conselho Nacional de Política Energética realiza, hoje, uma baita acareação das causas da crise e uma amarração final do programa de contenção forçada do consumo - na impossibilidade confessada de não se conseguir a expansão tempestiva da oferta.
A redução do consumo pode ser baixada por decreto, da noite para o dia. Primeira opção: um regime de cotas por médias passadas, escoltado pelo cão de fila de multas pesadas. Segunda saída, no fiasco da primeira: cortes orquestrados de suprimento em rodízio, vulgo racionamento. Por cotas ou por cortes, é pagar ou apagar.
No banco dos réus, o bom São Pedro. Que, em sendo brasileiro, nem sempre se obriga permanecer de plantão nos cargos acumulados de ministro da Energia e ministro da Agricultura. Estamos a meio caminho do outono (49 dias pela popa e mais 44 dias pela proa) e os reservatórios do Centro-Oeste, do Sudeste e do Nordeste estão abaixo da metade da média histórica da estação. É como se estivéssemos consumindo, aqui em maio, todas as águas de agosto.
Certo? Errado. O consultor José Luiz Alquéres, presidente do Fórum Brasileiro de Energia (da Abdib) e ex-presidente da Eletrobrás, diz que o problema não está nos baixos níveis de enchimento das represas e, sim, nos duros cortes de investimento das usinas. O sistema chegou a investir mais de US$ 14 bilhões por ano. Em 2000, ficou abaixo de US$ 4 bilhões. Em 2001? Alguém se habilita?
- Por que os investimentos tomaram chá de sumiço na travessia dos anos 90? Porque a modelagem da privatização, ainda inconclusa, não tem sido realista, diz José Luiz Alquéres. Para quem a questão de fundo não está na falta de chuvas. Está na falta de regras. É como se o governo, na privatização das hidrelétricas e na convocação das termoelétricas, estivesse banhado de remorso cívico.
- Uma privatização arrependida, que não ousa sequer admitir a futura formação de tarifas pelo próprio mercado.
Secos & Molhados
Sem margem
O sistema hidrelétrico brasileiro foi projetado e construído com cintura operacional suficiente para tirar de letra ciclos prolongados de estiagem - piores que o do verão que passou. O problema é que essa margem de segurança se deixou quase zerar na década passada.
Sem apelo
Por quê? Porque a tarifa média brasileira, na ponta do consumo, não passa de US$ 48 o MW/h. Nos Estados Unidos, também em crise, a coisa gravita ao redor de US$ 77. E na Argentina, superavitária até em petróleo, nada menos de US$ 83. Furnas vende por US$ 18. Uma nova usina dela teria custo de US$ 32. Onde o leitor plantaria sua usina?
Aviso prévio
Um par de números documenta o apagão mental do sistema: nos últimos dez anos, o consumo cresceu pela média anual de 4% e a oferta comeu a poeira pela média anual de 3%. Uma defasagem acumulada de 12% aqui na ponta. E lá se foi pelo ralo a tolerância operacional do sistema.
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